frankenstoria
set 1

CAPÍTULO 03

por Gabriela Ventura

Estado de choque, francamente. Só aquele jaburu da tia do Raul para sair espalhando que eu não compareci ao velório porque estava desfalecida, de cama, sem forças para respirar. M-o-r-r-e-n-d-o-d-e-a-m-o-r. Dona Maria é do tipo que lê Julias, Sabrinas e Biancas e eu, mesmo que estivesse de luto cerrado, seria incapaz de fornecer matéria-prima para literatura de banca de jornal. A velha que vá caçar lágrimas fáceis em outra freguesia, porque a donzela contrita aqui passou a manhã limpando a sujeirada que Morrissey – o adorável Pastor Alemão do defunto – fez no quintal.

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jul 5

CAPÍTULO 04

por Douglas Miguel

O telefone chama por duas vezes.

A mesma doce voz de sono, de quem dorme cedo porque tem faculdade no outro dia e nunca estica uma noitada.

 

- Alô… Gustavo… o quê? Porque tá me ligando essa hora?

- Oi Lara… como vai? Desculpe te ligar essa hora… quanto tempo né… como você tá… sabe o que é… – gagueja, ela sente sem nenhuma dificuldade que ele está bêbado – …eu não consigo parar de pensar… eu, tô com saudade Lara… eu…

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jun 18

CAPÍTULO 02

por Felipe Oliveira (Grilo)

Raul corre vestido com aquele terno que Jussara, sua esposa, sempre lhe dizia: “vai usar uma vez na vida, outra na morte”. Chique e descolado, o cadáver tenta manter a finura enquanto desembesta ladeira abaixo.

 

As pessoas costumam ver um filme à hora da morte, mas Raul só poderia começar pelos créditos. Será que agora sua arte valeria milhões? Será que se tornaria o único imortal realmente “imortal” da Academia Brasileira de Letras?

 

Não é sem antes exclamar um “CHUPA, PAULO COELHO!” que interrompe suas idéias por um súbito desconforto ao “respirar”.

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jun 1

CAPÍTULO 01

por Marcelo Paradella

Sururu e Saracotico na Célebre Cerimônia

 

- Coitado, tão moço…

 

- Na flor da idade, veja você.

 

- A Jussara, coitadinha, não agüentou. Ficou em casa em estado de choque…

 

- Por que, meu Deus? Justo o Raul?

 

- Um rapaz tão bom…

 

- Olha só, Maria, ele parece tão em paz.

 

- Tá sorrindo, o menino…

 

- Maria, olhando agora, não parece que o nariz dele se mexeu?

 

- Impressão sua, Emengarda.

 

- Sério, Maria! Parecia até que ele ia…

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jul 11

CAPÍTULO 02

por Douglas Miguel

O quarto do sobrado da rua Martins antes fúnebre agora tem noites e noites de vida, luz acesa madrugada adentro e o som da vitrola que não cessa.

 

Sr. Hilton sentado na sua poltrona, vestindo seu melhor terno, o charuto no canto esquerdo da boca. Embriagado pela doce voz, inebriado pelo perfume. Comprara todos os discos da Madame.

 

Como todo vício que se preze, surgiu a necessidade de doses cada vez maiores para satisfação completa. As noites se tornaram dias, as semanas, meses…

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