frankenstoria
fev 15

CAPÍTULO 03

por Igor André

 

Um hiato indefinido de tempo entre Clara desligar o telefone e a enfermeira voltar a bater em sua porta. As poucas horas que separaram a ligação do encontro estenderam-se em um lapso de proposições até a porta do quarto ser aberta: Fernanda estava ali!

 

Clara sentiu o sufocar de um mundo sobre seu peito. A mulher a sua frente tinha o semblante mais maduro do que ela se lembrava – mais soturno, talvez. Olhos fundos. Fernanda mantinha a força que apenas as mulheres que foram traídas conseguem manter diante de suas rivais… mesmo assim, as lágrimas dissolveram a maquiagem a ponto de arruinar a tentativa de manter-se altiva.

 

A esposa trazia um buquê de jasmim, que depositou, em absoluto silêncio, no vaso ao lado da cama. Com o mesmo silêncio Fernanda abriu sua bolsa, tirou um caderno, e ofereceu a Clara:

É o diário de Nando – disse, por fim.

 

Clara pegou o caderno com certa relutância e sem dizer uma palavra abriu em uma página que só não foi aleatória porque existe Destino. Um clipe prendia um bilhete de entrada para um show. O show. Abaixo estava escrito:

 

“O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria”

 

Quando eu a encontrei no show, o Moska cantava O Último Dia. Ela me fez pensar em seus versos. Seu nome é Clara.

 

Um sorriso discreto se desenhou nos lábios de Clara e uma lágrima fugidia escorreu pelo seu rosto.
Fernanda sentou na cadeira de acompanhante.

 

- O diário estava no porta-luvas do carro na hora do acidente. Pelo que li, é melhor que fique com você do que comigo.

 

Enquanto falava, Fernanda mirava um quadro brega de flor, desses que só são encontrados em quartos de hospital, para não ter que encarar de frente a emoção da mulher ao seu lado.

 

Respirava pausadamente. Escolhia cada palavra antes de proferi-la, e cada uma era uma fecha. Clara não conseguia discernir se Fernanda agia daquela forma deliberadamente porque sabia o quanto aquilo lhe era pungente, ou se cada pausa entre as palavras era necessária para conter o seu ódio, por solidariedade.

 

A verdade é que, para Clara, Fernanda sempre foi uma incógnita.
Nando era transparente demais para encobrir tão bem seus sentimentos e as diversas escapadas que dava para ficarem juntos. E os olhos castanhos de sua namorada, depois noiva, depois esposa, eram suficientemente sagazes para se deixarem enganar tão facilmente por explicações que, certamente, Nando não era bom em dar.

 

Na verdade eu sempre soube. – Disse Fernanda de súbito como se pudesse ler os pensamentos de Clara – Desde aquele dia no show. E até mesmo antes. Eu sabia que o Fernando nunca me pertenceu tanto quanto pertenceu a você.

 

Fernanda não conteve as lágrimas, o choro e a sofreguidão inerente a um sentimento há horas suprimido. Clara não conseguia dizer nada. Olhava o choro daquela mulher e duvidava muito que ela tinha ido até ali apenas para entregar o diário cuja maioria das páginas haviam sido dedicadas à outra mulher que não ela. Ela nunca pareceu o tipo detestável de mulher submissa e masoquista que leva o sofrimento de uma traição até as últimas conseqüências. Nunca “pareceu”, pelo menos.

 

- Me sinto tão culpada… – Fernanda seguiu com o monólogo diante da mais improvável ouvinte – Era claro que ele amava você. Era claro que não havia esperança para nossa relação. Era claro que um filho não iria separá-los para sempre. Era claro que o nosso filho não iria salvar a nossa vida…

 

O tom de Fernanda tornava-se urgente, como se uma verdade estivesse para ser revelada. Pela primeira vez, Clara a encarou:

 

- O que você fez? – a voz saiu baixa, fraca. Um misto de descrença e certeza em seu tom.

 

- Eu engravidei de propósito, Clara. Deixei de tomar pílula numa época que Nando e eu mal transávamos. – confidenciou como se para uma grande amiga – Agora o Nando está naquela cama e o meu filho pode crescer sem pai, por minha culpa. Por um erro irreparável.

 

Clara não se surpreendeu. O rumo da conversa já seguia para isso, ou algo não muito diferente. Surpresa mesmo foi não sentir raiva da situação. Encarou esta verdade com a naturalidade de quem não ouvira qualquer novidade.

 

- Não se preocupe, o Nando vai sair dessa e vai voltar para a Família. Aquele telefonema foi um erro. A culpa do acidente é minha. – Clara tentou uma solidariedade que não lhe era comum. Talvez ela mesma sentisse um pouco de culpa…

 

Embora soubesse que a verdadeira culpa era das incertezas de um passado que fora retalhado, mas que permanecera intacto.

 

- Não preciso da sua compaixão, Clara. Quando o Nan… o Fernando sair dessa, se sair dessa, ele irá pra onde ele estava indo no momento do acidente. – Fernanda levantou de subido, encarou seu reflexo no vidro de uma das janelas do quarto e enxugou as lágrimas, retocando a maquiagem.

 

Partiu em seguida.

 

Clara ainda não entendia totalmente o motivo da visita. Abriu novamente o diário:

 

“Meu amor
Vamos falar sobre o passado depois
Porque o futuro está esperando
Por nós dois.”

 

Clara sorriu novamente, tomada por um conforto estranho, com sabor de esperança.
Abraçou o diário contra o peito e através de um sorriso banhado em lágrimas sussurrou:

 

Ah, Nando…
“Eu já matei você mil vezes
E seu amor ainda me vem
Então me diga quantas vidas você tem.”

 

Lá fora, Fernanda bateu a porta do carro e encarou o retrovisor. Realmente se sentia culpada pelos erros que cometera no passado. Sabia que mesmo depois do acidente, do coma e talvez até da morte de Nando, seu filho ainda teria um pai. Um pai bem vivo, absolutamente intacto.




4 comentários

  1. Roberta Simoni comentou:

    Sou suspeita para falar. Prefiro só admirar… e aplaudir.

  2. Guilherme Tensol comentou:

    Belo presente para a estória, essa Fernanda quase-viúva… Bravo, Igor.

  3. Igor André comentou:

    Valeu rapaziada. Foi um prazer colaborar. Foi a primeira, mas espero que não seja a última!

  4. Thaís comentou:

    Estou encantada. A tempos aguardava o capitulo 3… continuarei aguardando o proximo

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