frankenstoria
set 1

CAPÍTULO 03

por Gabriela Ventura

Estado de choque, francamente. Só aquele jaburu da tia do Raul para sair espalhando que eu não compareci ao velório porque estava desfalecida, de cama, sem forças para respirar. M-o-r-r-e-n-d-o-d-e-a-m-o-r. Dona Maria é do tipo que lê Julias, Sabrinas e Biancas e eu, mesmo que estivesse de luto cerrado, seria incapaz de fornecer matéria-prima para literatura de banca de jornal. A velha que vá caçar lágrimas fáceis em outra freguesia, porque a donzela contrita aqui passou a manhã limpando a sujeirada que Morrissey – o adorável Pastor Alemão do defunto – fez no quintal.

 

Os faraós é que mandaram bem quando deram ordens para que todas as suas posses animais, vegetais e minerais os acompanhassem ao túmulo. Eu até quis sugerir que duas criaturas tão apegadas (e tão parecidas) um com o outro não deveriam ser separadas sob nenhuma circunstância, para o bem ou para o mal. No entanto, ninguém parecia disposto a discutir usos e costumes do Antigo Egito comigo. O bicho ficou, e decidiu me presentear com os despojos provocados pela excitação de toda uma noite em claro, acompanhando o chamado da ambulância para o antigo dono, o vai-e-vem de parentes e amigos querendo notícias e os conseqüentes curiosos que o anúncio da morte pareceu conjurar – sorte dele não ter sido o cachorro de Amenhotep, sorte dele.

 

Raul, se pudesse comentar acerca da minha súbita irritação com o cachorro, decerto soltaria um Ah, mas ele não seria o único a rodar. Tenho certeza de que as esposas, como boas propriedades que eram iam junto, sofrendo o mesmíssimo processo de embalsamamento, tudo muito romântico. Sorte minha que não há papel que nos vincule: sem provas materiais não posso ser chamada de esposa, quanto mais de viúva. E não há cadeira, TV de plasma ou grão de arroz que possam ser considerados propriedade dele nesta casa, param serem levados à pirâmide mais próxima. Nem mesmo a comida do Morrissey – que, contrariando seu xará, não dispensa carne em todas as refeições que faz. Paguei por tudo. E se meu cartão de crédito e eu vamos continuar sobre a terra, minhas coisas também vão.

 

Está certo, eu confesso: em outras épocas eu teria rido do previsível, mas ainda assim espirituoso provável comentário post-mortem de Raul. Começamos a namorar no fim da faculdade, e eu havia me interessado justamente pelo jeito debochado e descompromissado daquele menino prodígio que todos os professores incensavam, e afirmavam como uma das maiores promessas daquela geração. Eu era então uma aluna mediana: esforçada, razoavelmente culta, e facilmente “maravilhável”; apaixonar-me e cair aos pés dele foi o produto final da relação causa-efeito mais óbvia de todos os tempos.

 

O talento de Raul jamais me fez inveja, pelo contrário; sentia-me extasiada por eu, dentre todas, ter sido a escolhida, e conseguia me ver como a dedicada esposa de intelectual e membro da ABL, sua maior fixação. Seria seu braço direito, seu vínculo com a imprensa, a responsável por contratos e por todas as burocracias que ele sempre detestou. Nos últimos 15 anos, entretanto, a academia não cogitou seu nome para ocupar cadeira alguma. Não que tal omissão tenha me surpreendido: Raul não escreveu uma linha durante todo este tempo. A grande promessa adiou o mais que pode o pontapé inicial de sua genial & revolucionária obra, mas a pose gostava de manter; nenhum trabalho era digno o suficiente para sua privilegiada mente, as pessoas comuns o matavam de tédio.

 

PauloCoelhomeuovo, PauloCoelhomeuovo!, bradava em frente ao computador, quando soube que este usaria o fardão e a espadinha que sempre cobiçou. Quando eu o fiz notar que O Mago pelo menos escrevia, fiquei sem vê-lo por todo o fim de semana. Para alguém que havia se mudado para a minha casa três dias após a formatura, e que jamais dera qualquer indício de que retiraria os pés da mesinha de centro da sala, imaginei que aquele era o fim. Não era, obviamente. A excursão levou-o apenas ao bar da esquina, de onde ele se recusou a sair até que os três irmãos da dona decidiram justamente o contrário. A mesinha de centro só pode descansar em paz ontem, coitada.

 

Agora mais essa, morto. Não me surpreende, uma vez que as pessoas já o haviam esquecido. Raul morreu para chamar a atenção, eis tudo. Não é uma solução original, mas sem dúvida é a mais comovente, e uma vez mais preciso aplaudi-lo – a última, e como isso me alivia. O enterro servirá para congregar seus antigos puxa-sacos, os afetos, os desafetos.O espetáculo perfeito, o dramalhão desejado por todos os vampiros culturais da cidade – se bobear rende necrológio na Gazetinha e tudo. O Artista Recluso e Incompreendido, A vida inteira que podia ter sido e não foi. Tosse, tosse, tosse. A campainha, merda.

 

 

- …

 

- Desculpa, eu sei que você odeia essa buzina. É que sumiram com a minha chave, não achei em bolso nenhum.

 

- Que palhaçada é essa?

 

- Porra, Ju, eu volto do mundo dos mortos e é assim que você me recebe?

 

- Pelo visto você decidiu encher bastante a cara com eles antes de voltar. Por isso demorou tanto.

 

- Não vamos discutir agora, eu preciso de um banho. Você tem idéia de quanto um caixão abafado cheira mal?

 

- Pois que vá tomá-lo onde você quiser, aqui você não entra mais.

 

- …

 

- Chega, Raul. Eu aturei sua preguiça, suas supostas greves criativas, o mau-humor, a amargura, a inveja de todo grande escritor que lançava um novo livro, a bebedeira, a maldita obsessão pelo cachorro, e até a sua morte. Agora, essa solução deus ex machina foi o cúmulo do mau gosto e da sua decadência literária. E você achando que era muito melhor que o Paulo Coelho.

 

- …

 

- Tá bom, peguei pesado, é a cabeça quente. Dessa vez você pisou na bola feio. Vamos, o banho você pode tomar. Mas depois que vá caçar seu rumo. Eu vou para a casa da minha mãe, enquanto você arruma suas coisas.

 

- Ju, eu…

 

- Ah, o Morrissey fica comigo.




5 comentários

  1. Escrevendo pra fora | Quinas e Cantos comentou:

    [...] O meu capítulo você lê aqui. [...]

  2. Raphael Cardoso comentou:

    Eu já sou fã do Raul, não sei exatamente se por causa do fracasso (oi, catarse), do mau-humor latente ou pelo nome do cachorro. Ponderarei sobre isso

    Em tempo: muito bom, Gabi!

  3. Gui comentou:

    PauloCoelhomeuovo! hahahahaha

  4. Gui comentou:

    (gabi = muito ceLébro!)

  5. Gabi comentou:

    HAHAHA, por que é que eu sabia que o Rapha ia AMAR o nome do cachorro do defunto?

    E quanto a empatia, eu te entendo perfeitamente, meu querido

    Em tempo: Grita comigo mais uma vez, Gui: PauloCoelhomeuovo! ;)

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