frankenstoria
ago 30

CAPÍTULO 02

por Guilherme Tensol

 

Então as mãos no volante, lá fora escuridão – bastou uma ligação. Trocou de marcha e acelerou mais: Um toque. Uma verdade dolorosa. Já passava das 3 da manhã. Bala de café e saudade lancinante embotada nos olhos… e a Dutra continuava a acabar em água.

 

Há eras atrás… Eu te amo.

 

- Ama nada garoto! Você nem me conhece! …e ela caiu na risada após dizê-lo, e Nando teve certeza que ela era a mulher da sua vida.

 

- Você vem sempre aqui?

 

- Como é que é?

 

- Perguntei se você vem sempre aqui.

 

- E você odeia MPB, né?

 

- Não, na verdade não… na verdade eu gosto. É minha namorada ali que detesta, ó.

 

Mas que atrevido! Foi o que Clara sorriu e também o que lhe disse, e sim, era esse o nome dela, Clara… Na hora não conseguiu pensar em nada criativo para dizer, achou que deveria fazê-lo – no fundo Nando era um tímido mascarado de mascarado – mas daí esqueceu de si e enxergou de verdade o sorriso claro dela, o sorriso claro de Clara, e o mundo contentou-se então só em vê-la sorrir e em ter a alma sustentada pelos fios invisíveis da candura dela.

 

- Paulinho Moska é mesmo tudo de bom né…

 

- Ãh?

 

- Adóóóóóro!

 

Nando só sorriu, Clara ruborizou. E Nando teve certeza que ela era mesmo a mulher da sua vida, pelo menos por aquela noite.

 

- Eu falo demais né.

 

- Não, imagina…

 

- Pára! …e deu um tapa no ombro dele, só-para-encostar-nele-e-ele-sabia-disso-só-a-namorada-dele-que-não.

 

ZZZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzzzz

 

- EI SEU LOUCO!

 

Nando desviou em cima do caminhão, assustadíssimo com o barulho da buzina. Arregalou os olhos forçado, balançou a cabeça. Mais bala de café, Não posso parar.

 

 

Há nem tanto tempo assim… Nando, para.

 

- Ãh?

 

- Não dá mais.

 

- Clara…

 

- Para, Nando! Para garoto, para para pelo amor de Deus, para! Se você gosta mesmo de mim, se você gosta ou algum dia gostou alguma coisinha de mim como você diz, ou se você me ama como você diz… Para.

 

- Clara, escuta…

 

- Escuta o quê, Nando? Não, sério, me solta… Escutar o quê cara? Eu já entendi! Olha, eu já entendi mesmo, tá legal? Eu amo você, Nando. Eu amo você tanto, mas tanto, que acho que seu egoísmo nunca vai conseguir entender. E eu sempre soube, não tô te acusando de nada, eu que escolhi entrar nessa… Na verdade eu não escolhi nada, eu só me apaixonei por você, desde aquele dia no show… até isso né, merda! Estragou até isso né, o Paulinho Moska, nem consigo mais ouvir o cara! Desde aquele maldito dia eu só consigo pensar em você, me imaginar fazendo as coisas com você, imaginar a gente casado, caralho! Mas eu sei, eu sei que você tem noiva, eu sempre soube… E eu sei que você já escolheu…

 

- Clara! Ela tá grávida, porra! Isso não é escolher!

 

- É sim, Nando. É sim…

 

- Clara…

 

- E eu juro Nando. Eu prometo. Se eu ainda tiver alguma dignidade, alguma migalha de amor próprio, eu vou sumir de você! Você nunca mais vai saber um nada de mim, não te procuro nunca mais!

 

Ontem, vã foi a caterva dos limpadores em tentar secar o pára-brisa – visto do lado de fora, o pranto insuportável de Nando ficava tão invisível quanto os fios da candura dela, que ainda o envolviam, que ainda o sustentavam e ainda o conduziam… Retalhados, porém intactos.

 

Quando amanheceu hoje cedo, Srta. Clara, telefone pra você. Diz ser a mulher do Nando.

 

 

- O quê?! dormira esperando seu amado, acordou sobressaltada pela enfermeira: sabia que de alguma forma era ele, só não imaginava que…

 

- Oi Clara. É a Fernanda. – a voz entrecortada dos que sofrem: outro calafrio de morte, mas que dessa vez levou-se a si mesma a termo.

 

- Oi, Fernanda. Não tô entendendo… cadê o Nando?

 

- Clara, tô indo aí te ver.




1 comentário

  1. Roberta Simoni comentou:

    Sempre soube que o segundo capítulo estava em boas mãos.

    O que você foi aprontar com o Nando, heim, seu Guilherme?!?

    Tcham tcham tcham tchaaam! Aguardem as cenas do próximo capítulo!

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