frankenstoria
ago 5

Parte 01

 

O asfalto era antigo, mas apesar da idade não apresentava rachaduras. Era um ponto da cidade onde não passavam veículos de grande porte. Também não sofria um castigo severo do clima, algo incomum naquela região em que chovia bastante. Com exceção da cor que denunciava sua idade, aquele poderia ser considerado um terreno virgem.

 

E foi neste asfalto que surgiu um ponto de fogo que parecia não ser afetado pelo vento, que soprava com média intensidade naquele momento. Uma chama de poucos centímetros de altura era contida por uma espécie de tubo invisível, de cor escura, avermelhada. Em poucos segundos outra chama apareceu, depois outra, outra e mais outra. Cinco chamas perfeitamente iguais, como se fossem reflexos de um espelho.

 

Um cheiro pútrido tomou o ar, afastando animais maiores que por ali se encontravam. O silêncio começava a ganhar a luta constante contra os barulhos da noite, facilitando a observação que as chamas posicionavam-se com exatidão à mesma distância uma das outras. Mais curioso ainda era que todos os ângulos formados entre três chamas eram iguais. Se fosse traçada um linha unindo cada chama teríamos um pentágono de dimensões perfeitas.

 

Mas o que surgiu em poucos segundos foram traçados do mesmo fogo do qual cada chama era composta. Cinco traçados uniram as cinco chamas em um pentagrama, um estrela de cinco pontas. E da primeira chama, aquela que brilhava mais e determinava a orientação do pentagrama, surgiu uma língua de fogo, como se com vida própria, que uniu externamente as cinco chamas em um círculo, que envolvia o pentagrama. A simetria podia ser claramente observada, como se ali alguém tivesse utilizado lápis, régua e compasso.

 

O cheiro pútrido logo se revelou enxofre. Animais menores como ratos, cobras, baratas, aranhas, morcegos, centopéias e outros se aproximavam sem medo do pentagrama, sem ruídos, como se estivessem sido convocados pela mesma força que havia desenhado em fogo naquele asfalto semi-virgem.

 

No espaço de microssegundos, aquele que havia desenhado o pentagrama surgiu de dentro dele. Não houve tempo nem para um piscar de olhos e ele já estava lá. Nem um ilusionista poderia efetuar um efeito assim com tanta rapidez. Aquilo não era definitivamente uma ilusão.

 

Aquele ser belíssimo, de feições simétricas, corpo esculpido, de ar sedutor, roupas talhadas perfeitamente ao seu tamanho não havia surgido do nada. E não era desconhecido, assim como seu destino. Quem o esperava sabia quem ele era.

 

E lá se foi, assoviando alegremente uma famosa composição, fruto de uma das inúmeras parcerias entre Keith Richards e Mick Jagger. Lendas diziam que ele havia inspirado esta canção.

 

Mas os Stones nunca ofereceram nada em troca. Tão pouco lhes pagaram direitos autorais ou de qualquer outro tipo.

 

E por que o fariam? Ele era um fã.

 

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Guilherme Dutra, 30 e poucos anos, goiano por acidente, catarinense por opção. Marvete de carteirinha, escrever quadrinhos seria seu trabalho dos sonhos. Gostaria de falar como um personagem de David Mamet, mas na vida real soa como um dos Muppets. Escreve quando está inspirado e tem um romance parado na página 60 há vários anos. Um dia ele acaba.




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