frankenstoria
ago 3

Os ordinários

 

Tio da Sukita, 45

Sabe aquele tipo de gente que simplesmente não consegue cagar na casa dos outros? Comigo é ao contrário: já que vou cagar, que seja na casa dos outros! Desde criancinha. Minha mãe sempre dizia, não se caga onde se come…

 

Deve ser por isso que trepar pra mim é a mesma coisa: quanto mais alheia a mulher, melhor. Sou pós-pílula e pré-AIDS, todo mundo trepava com todo mundo, coleciono um bocado de anéis aqui comigo – anéis dos casamentos que traí e outros anéis que tracei, jóias que para os maridos eram sempre “não, por trás não!”. E outra, por que diabos a minha mulher sabe disso e faz vista grossa, ainda fica comigo? Será que o Nelsinho Rodrigues tava tão certo assim, toda mulher gosta mesmo é de apanhar é?

 

Deixa eu cagar aqui rapidinho que tenho minhas ferramentas em aço anodizado pra vender e tenho que dar meu não, obrigado pra essa casa nova que fingi que ia comprar… Tive dúvidas sobre cagar nela ou não – eis a questão – porque fingi que poderia vir a ser minha, coisa e tal etc. mas daí desencanei, e já que não tem mais nada a ver, missão cumprida, então tudo bem estrear a louça aqui da corretora gostosa que me deu o rabo lá na sala, mais um anel pro caderninho… Fingir interesse na casa pra comer a corretora: sou ou não sou um ordinário?

 

Desperate Housewife, 35

Meu namorado. A lesma tá lá em casa dormindo e eu já de pé faz uma hora. Bem, deu mesmo pra ver a disposição do garotão… Digamos que achei que correria uma maratona e acabou sendo cem metros raso, rasinhos rasinhos – é verdade, lesma não, minhoquinha mesmo.

 

Oi, meu nome é… Não vou dizer meu nome. Sou consultora de vendas. Sim, preciso vender a casa, sim, tenho um namorado mais novo, malhado e lindo, e sim, acabei de dar o rabo pra esse outro aqui porque ele tem grana, mulher e filha pra comprar o lugar. E até que me pareceu gostosinho o coroa, meio tio da Sukita sabe? Só o rabo-de-cavalo balançando no ritmo das bolas que foi o fim, mãããs…

 

Voltando ao meu namorado. Só porque eu disse “Quero lamber a porra do seu pau como se fosse um picolé, benzinho” o garotão tinha que brochar?! Raios, a idéia do sexo não é exatamente essa, ser sen-su-al? Falar e fazer coisas nas quais pensamos o tempo todo mas guardamos para nós para não chocar nossas mamães ou a velhinha do lado? – ei, não vale a Norma Lúcia como vizinha.

 

E eu nem ia fazer de verdade… Não gosto! Cheira água sanitária, gruda nos meus dentes da frente que é uma coisa! (sou das antigas, faço nas coxas, faço por trás mas na boca nem pensar) Mas a graça está exatamente aí, certo? Não precisa acontecer pra ser de verdade. O garotão reagiu mal, acho que ele prefere dominar a ser dominado, então preferi sentar em um contrato de quinhentos paus ao invés de em um pau murcho.

 

Jiujitêro, 25

Minha namorada locou, acabei de assistir o tal “Coraline”. Botões nos olhos? Esse tal Neil Gaiman é um fritado de LSD, né não? Botão é no rabo, cu, cús, com, sem acento, tô-pouco-me-fudendo-me-dá-que-eu-como.

 

Bem… Na verdade, acho que ando meio obcecado por cus ultimamente. Só vejo cu na minha frente! Cuzão, cuzinho apertado na calça jeans, cu de rola… E quando tô com alguém, é só a moça bambear depois da gozada e dar aquela desarmada na guarda que já raspo, ganho as costas e créu. AI-SEU-FILHO-DA-PUTA!, elas dizem de primeira, mas o Santo KY faz AI virar UI antas da décima bombada, gozo por trás garantido ou seu dinheiro de volta!

 

Por que será que só cu anda me atraindo ultimamente? Preciso parar com isso, passei vergonha, cheguei ao cúmulo de brochar com o pau dentro da boca da minha namorada! Eu hein… Mas também, “Quero lamber a porra do seu pau como se fosse um picolé” não é coisa que se diz, porra! Isso lá é coisa de mulher falar! Porque ela não fica quietinha de quatro enquanto eu trabalho em paz? Mundo louco, mulher mais velha é foda, é mais macho do que eu! Tsc… Tchô ligar pra Lola cabaço.

 

Lolita, 15

– Lola?
– Oi fortão, saudade de você! Acabei de chegar do colégio.
– Pensou sobre o que eu te falei?
– Pensei.
– E aí?
– Tá bom. Tudo bem, só por trás eu topo.
– Tá sozinha, posso ir aí? Cadê seu pai?
– Tô sim, pode vir. A corretora ligou, ele foi olhar a casa nova…

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Guilherme Tensol tem 25, 12 e meio ou 50 anos, dependendo do clima lá fora. Vive com ambos os pés em dois mundos: num é bacharel em Direito e perito criminal frustrado, noutro um bardo-bufão louco que vive para contar estórias. Atualmente, termina seu romance Buraco Negro e dirige cinema independente, sempre em busca da receita da caipirinha perfeita. Mantém o site Máfia do Pão de Queijo.




1 comentário

  1. Roberta Simoni comentou:

    P-E-R-F-E-I-T-O !!!

    Você é um perfeito contador de estórias, criatura.

    Um tanto ordinário, mas não menos adorável.

    ;-)

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