frankenstoria
jun 18

CAPÍTULO 02

por Felipe Oliveira (Grilo)

Raul corre vestido com aquele terno que Jussara, sua esposa, sempre lhe dizia: “vai usar uma vez na vida, outra na morte”. Chique e descolado, o cadáver tenta manter a finura enquanto desembesta ladeira abaixo.

 

As pessoas costumam ver um filme à hora da morte, mas Raul só poderia começar pelos créditos. Será que agora sua arte valeria milhões? Será que se tornaria o único imortal realmente “imortal” da Academia Brasileira de Letras?

 

Não é sem antes exclamar um “CHUPA, PAULO COELHO!” que interrompe suas idéias por um súbito desconforto ao “respirar”.

 

- Seu Raul, o que é esse teco de algodão no seu nariz? – É a dona do bar quem pergunta.

 

Retira as bolinhas brancas que lhe tampavam o nariz e ouvidos. Prefere não pensar o que tinham lhe enfiado na bunda.

 

- Mas você não tava morto?

 

- Acho que sim. Sei lá, Lurdinha. Não dá pra filosofar sobre a existência, sóbrio.

 

Depois de umas 14 latas de cerveja já não sabe de frauda, de amônia, de coisa nenhuma. Mal sabe do que havia morrido.

 

- Foi de tiro? – diz procurando novos buracos recheados de algodão.

 

- De tiro o quê?

 

- Que eu morri. Sempre achei que seria de tiro. Reagindo corajosamente a um assalto.

 

- Nada. Infarto. Dizem que você guinchou feito um porco e aí se estatelou no chão.

 

- Será que eu “voltei” porque ainda tenho coisa pra acertar?

 

- Que bom que você acha isso. Que tal começar pelos fiados?

 

Uma das vantagens de estar “morto” é não pagar contas. É o que diz à Lurde, antes de ir embora cambaleando, meio sujo, resmungando sozinho.

 

Raul é um desses que só pensam no propósito da vida depois de bêbado e morto. Apesar da estratégia furada de arrancar dinheiro dele, a parte de estar em débito com o mundo faz sentido. Precisa saber onde tinha errado na vida.

 

Mas isso é assunto para algum próximo capítulo.




9 comentários

  1. Gui Tensol comentou:

    hahahahahaha! Isso tá ficando cada vez melhor! Boa, muito boa Grilo! Tô me animando muito a meter o bedelho nisso hein! hahahaha Coitado do seu Raul! :)

  2. Gabriela V. comentou:

    Douglas me convidou a continuar a saga do morto – que estou achando divertidíssima. Aproveito para perguntar se os senhores não acharam que está muito mal contada esta história da viúva contrita que não aguentou com a emoção e faltou ao velório?

    Em tempo: vamos torcer para que minha colher não desande o caldo. ;)

  3. Grilo comentou:

    Posso dar minha opinião?
    Acho que dá pra aproveitar isso como gancho! =)
    Abs!

  4. Guilherme Tensol comentou:

    Pois é, Gabi Gabriela… Acho que, sem querer, já deu a deixa de para onde essa estória precisa trilhar!

    besos,
    G

  5. Marcelo comentou:

    Bom,

    1) estado de choque é estado de choque. pessoa pode tá catatônica.

    2) em nenhum momento citei q a Jussara era a mulher. Poderia ser irmã.

    3) Como já disseram, ói o gancho aí, ó!

  6. douglasmiguel comentou:

    Paradella, você não citou, mas o Grilo faz isso no primeiro parágrafo do capítulo 2: “Raul corre vestido com aquele terno que Jussara, sua esposa, (…)”.

  7. Gabriela V comentou:

    É, molecada,

    a tal Jussara -possível irmã que virou esposa – tá mesmo em casa. Mas eu tenho leves desconfianças de que esta catatonia é intriga da oposição. Mas isso eu conto pra vocês dentro em breve.
    ;)

  8. Roberta Simoni comentou:

    Isso vai dar pano pra manga e deixou foi gancho pro próximo capítulo. E eu tô adorando!

  9. Escrevendo pra fora | Quinas e Cantos comentou:

    [...] Os capítulos um e dois você lê aqui e aqui. [...]

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