frankenstoria
mai 26

CAPÍTULO 01

por Roberta Simoni

 

Ele estava assistindo um filme de luta na tevê, sem nada melhor para fazer. Já era tarde e o sono começava a bater quando, de repente, seu celular tocou. Era ela… nem ele sabia, mas ainda tinha o número dela registrado na agenda do telefone, apesar de não receber nenhuma chamada sua há anos. Anos mesmo.

 

Ela arriscou ligar para o número dele, sem muitas expectativas. Imaginou que fosse uma das únicas pessoas que consegue manter o mesmo número durante tanto tempo. Por isso cedeu despreocupada ao seu impulso e ligou tarde da noite, acreditando que não daria em nada mesmo, mas com uma esperança tímida escondida no canto da alma.

 

Pelo visto ela não era a única que fazia questão de manter certas coisas. Aliás, essa não era a única coisa que os dois mantinham intactos. Tanto que o coração dele, quando viu o nome dela no visor, começou a bater tão acelerado quanto o dela quando viu que estava chamando…

 

Ele sentiu vontade de atender falando o nome dela, mas temeu que pudesse ser um engano, ou sei lá o que, e só disse:

 

- Alô?

 

- Alô… Nando?

 

- Clara?

 

- Meu Deus… é você! Desculpa te ligar tão tarde, é que…

 

- Tudo bem, eu continuo com problemas de insônia… é ótimo ouvir a sua voz de novo, sabia?

 

- É muito bom falar com você também. Eu sei que prometi não te procurar, mas hoje…

 

- Eu quis te procurar muitas vezes, só que…

 

- Sofri um acidente, Nando. Quase morri.

 

- Meu Deus! Como isso aconteceu? Como você tá?

 

- Tô bem agora. Não vou morrer, quero dizer, pelo menos não agora. Mas tô apavorada.

 

- Mas o que houve, afinal? Me fala, por favor… tá me assustando.

 

- Fui atropelada há alguns dias. Quebrei alguns ossos e bati com a cabeça, fiquei desacordada por mais de um dia, e quando recuperei os sentidos não lembrava de nada do acidente, e ainda não lembro, mas desde então tenho pensado em você com fixação, por isso quebrei a promessa.

 

- Puxa, Clara, sinto tanto por isso… de verdade. Gostaria de estar aí para te abraçar agora, para ver de perto como você está.

 

- Você não ia gostar de ver como está o meu rosto. Quebrei o nariz em cinco lugares, inclusive. Mas o médico disse que vou voltar ao normal, e isso me encorajou a te procurar.

 

- Mas o que é isso? Você acha que eu deixaria de querer te ver se o seu rosto estivesse desfigurado? Francamente…

 

- Então vem…

 

 

Silêncio.

 

 

- Você sabe que…

 

- Eu sei… apesar de não parecer, eu tenho noção do que estou te pedindo.

 

- Pois é… eu adoraria te ver de novo, especialmente agora que você tá passando por isso, mas…

 

- Eu sei Nando, eu sei… você não pode, eu não posso. E nós estamos há centenas de quilômetros de distância. Existe um verdadeiro abismo entre nós. Mas é que quando eu pensei que fosse morrer, só consegui pensar em você, e fiquei apavorada com a ideia de não poder te ver nunca mais.

 

- Clara, eu…

 

- Nando, eu nunca tive pensamentos suicidas, você sabe, mas confesso que cheguei a pensar que teria sido mais fácil se eu tivesse morrido, mas aí eu lembrei das coisas que eu ainda quero fazer, e no topo da minha lista está você. Preciso te ver mais uma vez. Foi essa vontade que me deu forças para viver, tenho certeza.

 

- Clara, não fala mais nada.

 

Ele desligou o telefone apressado, comovido, emocionado, com o coração de Clara nas suas mãos, segurou-o com cuidado, sabendo exatamente o que devia – mas não podia – fazer.

 

Bastou uma ligação. Um toque. Uma verdade dolorosa. Um incidente. Um acidente. O calafrio da morte que não matou, ao contrário, ressuscitou dois corações.




3 comentários

  1. Guilherme Tensol comentou:

    snif.

  2. Roberta Simoni comentou:

    Por que o Guilherme chora, gente?

  3. Guido Terrabravo comentou:

    BENVÓLIO — Não, primo; chorar quero.
    ROMEU — Por quê, bondoso amigo?
    BENVÓLIO — Por ver que tens opresso o coração.
    ROMEU — Do amor é sempre assim a transgressão. As dores próprias pesam-me no peito; mas agora redobras-lhes o efeito com mostrares as tuas; o tormento que revelaste, ao meu deu mais alento. O amor é dos suspiros a fumaça; puro, é fogo que os olhos ameaça; revolto, um mar de lágrimas de amantes… Que mais será? Loucura temperada, fel ingrato, doçura refinada. Adeus, primo. (Faz menção de retirar-se.)

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