frankenstoria
dez 16

CAPÍTULO FINAL

por Guilherme Tensol

Ele está vindo aqui.

 

Tic-tac, tic-tac… Estou sem chão, sem lugar, a merda do coração entalado na garganta – eu já não te chutei pra longe praga, porque ainda me incomoda? Some, desaparece, não preciso de coração agora não!

Tic-tac…

Matei uma barata na quina com o bico do scarpin (lembrei do colégio), troquei de roupa duas vezes, mudei o cinzeiro de lugar três – aliás, sei que parei mas um cigarro ia ser uma boa hein, esfreguei o chão de quatro pra ficar bem feito.

Sou ou não sou uma palhaça?
(de quatro por você, para você, como eu quero!)

…depois de tanto tempo! Tanta expectativa! Tantos joguinhos e tanto ódio e tanto tesão e tantas reviravoltas, tudo para isso, para agora! A proximidade do clímax por si só me inebria, meia taça de vinho e já tô leve como uma pluma – que delícia, vai me carregar no colo mais fácil, vai me segurar pela bunda, minhas coxas enroladas na cintura dele… AI! Pára ou vou gozar sozinha! Hahahahaha!…

Cadê o espartilho? MERDA! CADÊ A MERDA DO ESPARTILHO?! Onde enfiei essa joça?
Ah… verdade. O frouxo me comeu e eu tava usando ele. Ele e o espartilho. Na verdade, eu comi o frouxo. Comi você com o pau dele. Tsc… não foi a mesma coisa. Merda de internet, de relacionamento virtual, eu.com do caralho…

Meu negócio é pele! Agora sim! Você está vindo aqui! Enfim vai me roubar e enrabar e vai me ter e me ter… HAHAHAHAHA… olha só a cacofonia sua boba, hahahaha… acho que estou meio tonta! É o vinho – é você.

 

O tempo passa.

 

Sento, solto o ar. Desligo a música.
Olho para o lado, olho para o relógio. Tudo bem, pegou um engarrafamento pelo caminho. Esse trânsito. Atravessar a Copacabana 1 da manhã é um inferno! Desgraçado, será que tá dando mole pra alguma puta? Filho da puta!…

Pára! Neura, pára. Nada disso.
Fica quieta. Ele tá vindo, tá chegando. Sossega.

Pega o vinho, vai. Toma outro gole. Isso…
Calma.

 

Calma…

 

A carne. Não tá mais saindo fumacinha. Fiz o filé exatamente como sei que você gosta, um puta trampo, DESGRAÇADO! CADÊ VOCÊ?! QUER ME DEIXAR LOUCA É, QUER ME MATAR DE VEZ?!

(estou tonta)

SEU CALHORDA FILHO-DA-PUTA, VOCÊ JOGA!

(perdi o controle, quebrei tudo, acho que cortei a mão)

VOCÊ JOGA!!!

 

Tempo. Cegueira. Fôlego.
Caio sentada.

 

Que merda que eu fiz.

 

Estática sentada no chão, olhos embotados.

Séculos depois o nervo reage contra a tonelada de vergonha que sinto de mim mesma, vergonha que me paralisa, consigo o dificílimo: ficar de pé, bater a poeira da saia, juntar um mais um os cacos da louça… AI! Minha mão, tá sangrando mesmo. Melhor lavar isso na pia.

Abro a torneira, deixo a água correr, cortou fundo.

Desgraçado…

E começo a chorar. Eu, sozinha de pé nessa cozinha imensa, eu e esse prato quebrado e esse corte na mão. Choro muito, choro tudo, enxergo de fora a minha situação e nada é mais patético, e como é ruim se sentir assim…

Patética. Patética. Patética.

 

 

Ele não vem, não vem mais. Fazem 3h que ele “está vindo aqui”. Calhorda! Não sabe o que é fazer uma mulher esperar? Pensando melhor, sabe sim.

Covarde… Olha o tamanho desse corte! Band-aid, pronto.

Deixa eu pegar os cacos.

Covarde… Mas respiro fundo, deixe estar, ele vai ver só.

Um dia virá à tona toda sua angústia e nesse momento ele verá…

 

A campainha toca, tremo – é você.

 

Estou paralisada novamente, os joelhos tremem, a mão fica boba e solto os cacos no chão.
Você deve ter ouvido, toca de novo.

 

ding dong

 

– Meu bem. Você taí?

 

toc toc toc

 

– Sei que tá sozinha, o carro dele não tá na garagem. – meu Deus, ele não sabe? – Deixa eu entrar.

 

Você não sabe.

 

– Escuta… Sei que…

 

Abro a porta.
Você está lindo.

 

– Meu marido morreu.

 

O choque da porta aberta se soma ao choque da notícia que se soma ao choque do bizarro disso tudo. Então, nós só nos olhamos. Por um tempo.

– Você tá bêbada?
– De verdade, não é da sua conta.
– São pra você…

Quase choro. Meus gerânios que eu amo, você ainda se lembra…
Não lhe caiu a ficha sobre o meu marido.

– Põe aí em qualquer lugar… Entra.

Meio sem jeito, tateante, você entra. Mesmo de costas vejo que repara sim na bagunça, coloca as flores na mesinha e não consegue nem sentar de tão deslocado.

– Gostou da webcam?
– Não sei. Andou fumando é? Não disse que tinha parado, que seu marido tava orgulhoso…
– Esquece meu marido. Onde você tava?
– A Copacabana tava um inferno.

Desgraçado.

– Quer vinho?
– Er… Deixa. Não, não quero. Não obrigado.

 

Peraí. Detenho-me, viro pra você. Recusando o vinho? A porta de entrada para meus mistérios, o primeiro passo para ter o que veio buscar aqui? Agora estou perdida, perdidíssima. Que diabos está acontecendo aqui? Que cara péssima é essa?

– Ei, que foi?

Não tô acreditando que você tá aqui de verdade, dentro da minha casa de verdade, sujando o meu tapete de verdade, e você não fala. Odeio quando você, simplesmente, não fala.

Amenizo o tom de voz, tento através da doçura.

– O que foi?

 

Você se remexe, contorce, põe as mãos no bolso.
E eu, viciada em desabamentos, colapso por antecipação.

 

– Não vai rolar.
– Como assim, não vai rolar?

Falo como se falasse sobre qualquer coisa boba, como se passasse receita de bolo, e murcho tanto por conta disso que sei que viverei 10 anos a menos.

– Estou apaixonado por outra. Vou me casar com ela. Você não é mulher pra mim, acho que nunca foi.

 

E aqui não sei como descrever o meu olhar. É possível uma mulher sentir tudo o que há para se sentir – ódio raiva desprezo humilhação esperança descrença paixão – junto ao mesmo tempo?

Só sei que o seus olhos, ao cruzarem com os meus, viram algo que não queriam, fugiram para o lado e depois para baixo, e por fim você me deixou um…

– Desculpa. Fica bem.

 

Desculpa, fica bem.
Desculpa… fica bem.

 

 

E você se vira, me dá as costas, devagar, caminha rumo à saída.

Na soleira da porta ainda hesita. Acho que compreende que se passar daí acabou de vez – será que percebe o que está fazendo? Que pode me ter só pra você, que podemos ser felizes para sempre juntos, que isso tudo foi um erro e que você só está confuso…

 

Você suspira, decide, sai.

 

E eu fico. Pasma, inerte, estraçalhada. Sozinha.
E para poder chorar meu choro sozinha, fecho a porta atrás de você.




2 comentários

  1. Roberta Simoni comentou:

    O que falar da nossa protagonista?
    Não poderia haver outro fim para essa mulher maravilhsamente louca.

    A diferença é como isso foi contado. Aí entra o Gui, emocionando, intensificando e surpreendendo.

    Fantástico!

    Parabéns a todos nós pela bela criação em grupo!

    Beijos e até a próxima… ;-)

  2. Taciana Dutra comentou:

    PERFECT!

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