- Capítulo 05 – por Marcelo Paradella
CAPÍTULO FINAL
por Guilherme Tensol
Ele está vindo aqui.
Tic-tac, tic-tac… Estou sem chão, sem lugar, a merda do coração entalado na garganta – eu já não te chutei pra longe praga, porque ainda me incomoda? Some, desaparece, não preciso de coração agora não!
Tic-tac…
Matei uma barata na quina com o bico do scarpin (lembrei do colégio), troquei de roupa duas vezes, mudei o cinzeiro de lugar três – aliás, sei que parei mas um cigarro ia ser uma boa hein, esfreguei o chão de quatro pra ficar bem feito.
Sou ou não sou uma palhaça?
(de quatro por você, para você, como eu quero!)
…depois de tanto tempo! Tanta expectativa! Tantos joguinhos e tanto ódio e tanto tesão e tantas reviravoltas, tudo para isso, para agora! A proximidade do clímax por si só me inebria, meia taça de vinho e já tô leve como uma pluma – que delícia, vai me carregar no colo mais fácil, vai me segurar pela bunda, minhas coxas enroladas na cintura dele… AI! Pára ou vou gozar sozinha! Hahahahaha!…
Cadê o espartilho? MERDA! CADÊ A MERDA DO ESPARTILHO?! Onde enfiei essa joça?
Ah… verdade. O frouxo me comeu e eu tava usando ele. Ele e o espartilho. Na verdade, eu comi o frouxo. Comi você com o pau dele. Tsc… não foi a mesma coisa. Merda de internet, de relacionamento virtual, eu.com do caralho…
Meu negócio é pele! Agora sim! Você está vindo aqui! Enfim vai me roubar e enrabar e vai me ter e me ter… HAHAHAHAHA… olha só a cacofonia sua boba, hahahaha… acho que estou meio tonta! É o vinho – é você.
O tempo passa.
Sento, solto o ar. Desligo a música.
Olho para o lado, olho para o relógio. Tudo bem, pegou um engarrafamento pelo caminho. Esse trânsito. Atravessar a Copacabana 1 da manhã é um inferno! Desgraçado, será que tá dando mole pra alguma puta? Filho da puta!…
Pára! Neura, pára. Nada disso.
Fica quieta. Ele tá vindo, tá chegando. Sossega.
Pega o vinho, vai. Toma outro gole. Isso…
Calma.
Calma…
A carne. Não tá mais saindo fumacinha. Fiz o filé exatamente como sei que você gosta, um puta trampo, DESGRAÇADO! CADÊ VOCÊ?! QUER ME DEIXAR LOUCA É, QUER ME MATAR DE VEZ?!
(estou tonta)
SEU CALHORDA FILHO-DA-PUTA, VOCÊ JOGA!
(perdi o controle, quebrei tudo, acho que cortei a mão)
VOCÊ JOGA!!!
Tempo. Cegueira. Fôlego.
Caio sentada.
Que merda que eu fiz.
Estática sentada no chão, olhos embotados.
Séculos depois o nervo reage contra a tonelada de vergonha que sinto de mim mesma, vergonha que me paralisa, consigo o dificílimo: ficar de pé, bater a poeira da saia, juntar um mais um os cacos da louça… AI! Minha mão, tá sangrando mesmo. Melhor lavar isso na pia.
Abro a torneira, deixo a água correr, cortou fundo.
Desgraçado…
E começo a chorar. Eu, sozinha de pé nessa cozinha imensa, eu e esse prato quebrado e esse corte na mão. Choro muito, choro tudo, enxergo de fora a minha situação e nada é mais patético, e como é ruim se sentir assim…
Patética. Patética. Patética.
…
Ele não vem, não vem mais. Fazem 3h que ele “está vindo aqui”. Calhorda! Não sabe o que é fazer uma mulher esperar? Pensando melhor, sabe sim.
Covarde… Olha o tamanho desse corte! Band-aid, pronto.
Deixa eu pegar os cacos.
Covarde… Mas respiro fundo, deixe estar, ele vai ver só.
Um dia virá à tona toda sua angústia e nesse momento ele verá…
A campainha toca, tremo – é você.
Estou paralisada novamente, os joelhos tremem, a mão fica boba e solto os cacos no chão.
Você deve ter ouvido, toca de novo.
ding dong
– Meu bem. Você taí?
toc toc toc
– Sei que tá sozinha, o carro dele não tá na garagem. – meu Deus, ele não sabe? – Deixa eu entrar.
Você não sabe.
– Escuta… Sei que…
Abro a porta.
Você está lindo.
– Meu marido morreu.
O choque da porta aberta se soma ao choque da notícia que se soma ao choque do bizarro disso tudo. Então, nós só nos olhamos. Por um tempo.
– Você tá bêbada?
– De verdade, não é da sua conta.
– São pra você…
Quase choro. Meus gerânios que eu amo, você ainda se lembra…
Não lhe caiu a ficha sobre o meu marido.
– Põe aí em qualquer lugar… Entra.
Meio sem jeito, tateante, você entra. Mesmo de costas vejo que repara sim na bagunça, coloca as flores na mesinha e não consegue nem sentar de tão deslocado.
– Gostou da webcam?
– Não sei. Andou fumando é? Não disse que tinha parado, que seu marido tava orgulhoso…
– Esquece meu marido. Onde você tava?
– A Copacabana tava um inferno.
Desgraçado.
– Quer vinho?
– Er… Deixa. Não, não quero. Não obrigado.
Peraí. Detenho-me, viro pra você. Recusando o vinho? A porta de entrada para meus mistérios, o primeiro passo para ter o que veio buscar aqui? Agora estou perdida, perdidíssima. Que diabos está acontecendo aqui? Que cara péssima é essa?
– Ei, que foi?
Não tô acreditando que você tá aqui de verdade, dentro da minha casa de verdade, sujando o meu tapete de verdade, e você não fala. Odeio quando você, simplesmente, não fala.
Amenizo o tom de voz, tento através da doçura.
– O que foi?
Você se remexe, contorce, põe as mãos no bolso.
E eu, viciada em desabamentos, colapso por antecipação.
– Não vai rolar.
– Como assim, não vai rolar?
Falo como se falasse sobre qualquer coisa boba, como se passasse receita de bolo, e murcho tanto por conta disso que sei que viverei 10 anos a menos.
– Estou apaixonado por outra. Vou me casar com ela. Você não é mulher pra mim, acho que nunca foi.
E aqui não sei como descrever o meu olhar. É possível uma mulher sentir tudo o que há para se sentir – ódio raiva desprezo humilhação esperança descrença paixão – junto ao mesmo tempo?
Só sei que o seus olhos, ao cruzarem com os meus, viram algo que não queriam, fugiram para o lado e depois para baixo, e por fim você me deixou um…
– Desculpa. Fica bem.
Desculpa, fica bem.
Desculpa… fica bem.
…
E você se vira, me dá as costas, devagar, caminha rumo à saída.
Na soleira da porta ainda hesita. Acho que compreende que se passar daí acabou de vez – será que percebe o que está fazendo? Que pode me ter só pra você, que podemos ser felizes para sempre juntos, que isso tudo foi um erro e que você só está confuso…
Você suspira, decide, sai.
E eu fico. Pasma, inerte, estraçalhada. Sozinha.
E para poder chorar meu choro sozinha, fecho a porta atrás de você.

16/12/2009 às 14:07
O que falar da nossa protagonista?
Não poderia haver outro fim para essa mulher maravilhsamente louca.
A diferença é como isso foi contado. Aí entra o Gui, emocionando, intensificando e surpreendendo.
Fantástico!
Parabéns a todos nós pela bela criação em grupo!
Beijos e até a próxima…
17/12/2009 às 23:25
PERFECT!