frankenstoria
out 9

CAPÍTULO 05

por Marcelo Paradella

Engano meu. Nada ficou “tudo bem”. Durante as últimas duas semanas – telefonemas de consolo, explicações às autoridades, o maldito velório – meu corpo estava lá mas eu não. Você anda tão distraída…, Ãh?, Coitadinha… É a perda, é a perda. Perda, tsc. Não conseguia era tirar da cabeça aquela sua mensagem piscando enquanto eu corneava meu marido com ele mesmo – ou estava era corneando você? Enquanto a sogra e as crianças choravam na sala, várias vezes fugi para o quarto sob mil pretextos diferentes, Tristeza demais, vou retocar a maquiagem, Preciso mijar, Preciso dormir. Minha vontade era ligar o computador, olhar no histórico, ver o que você escreveu naquela maldita mensagem. Mas só ficava ali parada, olhando. Até alguém me chamar de longe ou bater na porta, e eu voltar para o mundo dos mortos.

 

Por fim apaguei, na vã esperança de que não havendo o objeto tentador, não haveria a tentação. Piorou.

 

Então seus e-mails. Eles chegavam, eu não abria. Eles pediam confirmação de leitura, eu os apagava. Minha curiosidade só não era maior que o asco que passei a sentir de mim mesma, pouco a pouco, como um orgasmo ruim, às avessas.

 

Entenda, não pelo que fiz aquela noite. Mas pela facilidade com que me livrei de qualquer culpabilidade. Aparentemente, acidentes sexuais que resultam em morte são tabu, a polícia não quer mexer nisso. Tara de marido e mulher, ninguém põe a colher, disse um dos oficiais. Vai infarto mesmo.

 

Merda de polícia. Cadelas no cio tinham que viver enjauladas.

 

Meus filhos. A mãe do frouxo pediu para cuidar deles por uns tempos, Até você conseguir acertar sua vida. Sei. Vai mimar. Vão ser mimados como o pai. Merda!

 

Mas e você? É você que é o maior dos frouxos. Seu bunda. Medo de mim, medo de você mesmo? Por que te agüento? Fecho os olhos. Seus lábios contra os meus. Sua barba rala de dois dias pinicando levemente minha pele. Suas mãos. Lá. Ali. Sim… A sua língua me percorrendo totalmente, cada curva, cada local secreto que só você sabe chegar. Minhas mãos percorrem meu corpo. Suas mãos percorrem meu corpo. Seu toque. Meu toque. Paixão reprimida extravasada. Suor. Palpitação. A manifestação de um desejo animal, prazer que não é uma explosão, e sim, uma implosão. Eu desmorono.

 

Molhada, vejo o computador. A culpa é sua, tralha imprestável! Ele nunca me alcançaria se não fosse por você! Não sei se te jogo pela janela ou se passo a te oferecer sacrifícios humanos. Talvez já tenha feito isso. O computador, meu Deus particular.

 

Levanto ainda bamba do pós-gozo, há duas semanas ele adormece. Ligo. Primeiro o barulho da maquinaria da impressora, depois o zumbido dele, contínuo, elétrico. Em minutos estou online – de volta ao meu habitat, de volta aonde meus desejos se renovam. Onde sou virtual, onde sou verdadeira.

 

E você está aqui também. Estava esperando.

 

VOCÊ: Sem espartilho hoje?

EU:

 

Será que aquela exibição particular não te disse nada?

 

VOCÊ: Perversa…

EU:

VOCÊ: Pela cara dele, você estava era pensando em mim.

EU:

VOCÊ: Muito quieta. Cadê você?

 

Eu estou aqui calhorda. Mas não quero falar com você. Tenho medo. De mim. De você. E, principalmente, de nós.

 

VOCÊ: Olha outra foto que fiz de você.

 

Já perdi a conta das fotos que esse depravado me envia. Geralmente é uma adulteração de alguma foto minha. Se existe sexo virtual, porque não fantasias? Já me enviou de cabelos ruivos, louros, de vampira, mudou a cor das minhas roupas, sempre pra preto. Nessa última… Ah, sim. Óbvio. Mulher-dama. Sei. E minha resposta é:

 

EU:

VOCÊ: O que preciso fazer para você falar comigo?

 

Mete o pé na porta de casa, me levanta do chão, me fode na pia, me come na mesa da sala, enfia a cara na minha buceta e não tira até eu mandar, me enraba, me enraba.

 

EU:

 

E aí, o que eu mais temia. O que eu mais queria. Sim. Não.

 

VOCÊ: Estou indo aí.




6 comentários

  1. Srta. Rosa comentou:

    Vocês deviam ler ‘Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios’ do Marçal Aquino. A ‘Travessuras da Menina Má’, do Llosa. Porque isso está parecido com boa literatura, bem escrito, com sacanagem, dilema, tudo tudo o que ela tem direito.
    Tô gostando. Vou por um link lá em casa. :)

    Besitos, autores todos. A mistureba tá ficando show de bola.

  2. Catarina Herrera comentou:

    Nossa, o ‘eu.com’ tá me deixando completamente zonza. Está perfeito, nem parece que foram várias pessoas que escreveram (a maioria, tava contando, homens). Acho difícil escrever em 1a pessoa, em 1a pessoa na cabeça do sexo oposto mais difícil ainda. Parabéns, Marcelo e a todos os escritores (e ao Douglas, que, pelo que eu saiba é o idealizador do projeto). Está fantástico!

  3. Douglas Miguel comentou:

    Catarina Herrera: não sozinho, Bruno Duarte e Gui Tensol me acompanham nessa ‘empreitada’, hehehe…eu que tenho muito à agradecer, para todos.
    :)

  4. Grilo comentou:

    NIIIIIIIIIIIIIIIICE.
    Vejos os capítulos se encadearem, mantendo enredo, psicológico, trama, clímax a cada capítulo. E o que a Catarina Herrera falou: uma história com sexo escrito por ambos os sexos, sem perder nada e sem ficar confuso! Eu imagino COM FORÇA todos os capítulos dessa história formando um livro mais a frente.

  5. Marcelo Paradella comentou:

    Obrigado a todos pelo apoio e pela leitura. E meus agradecimentos ao Gui e ao Douglas por me deixarem contribuir um cadinho com essa empreitada.

    abs

  6. Marina Teixeira comentou:

    MUITO bom!! Que venha logo o próximo capítulo!!!

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