frankenstoria
out 7

Caro amigo Zzyziks,

 

Sei que você está de partida para conhecer o planeta Terra durante suas férias intergaláticas. Já fiz esse mesmo programa de índio – tive de parar minha espaçonave num continente e, por perceber que ninguém lá havia sido colonizado, batizei o lugar de “Brasil”, que na nossa língua significa “escambau”.

 

Mando esta mensagem para lhe avisar o seguinte: não é fácil se virar no planeta Terra. Principalmente quanto à comunicação. Você vai entender melhor com a prática, mas aqui vai um manual básico em formato de dicas:

 

1- Em locais conhecidos como elevadores, onde os seres humanos sobem e descem, é de bom tom dizer “Está quente, não?” ou “Está frio, não?” ou “Clima maluco, não?”, mesmo que compartilhar informações meteorológicas não aparentem ter relevância. Os humanos sentem-se constrangidos por estarem em silêncio em local público.

 

2- Em contrapartida, um ser humano sempre pedirá informações quando você estiver de pé, andando, ocupado ou quando não sentir o menor constrangimento em permanecer calado.

 

3- Pequenos gestos fazem toda a diferença. Use o dedo polegar para dizer “opa, tudo beleza”. Não o dedo médio. Na dúvida sobre qual dedo escolher para formular seu cumprimento, use apenas as cordas vocais.

 

4- Estes mesmos pequenos gestos podem mudar de significado de acordo com a região. Dedo polegar significa “tudo beleza” no Brasil, mas na Grécia significa algo como “Quero comer sua mãe”. O canibalismo não é incentivado.

 

5- Contar piadas – causos engraçados, fictícios ou não, que estimulam o arqueamento labial – é uma tática utilizada para se apresentar coerente ao gosto popular e ao ambiente cultural que o cerca. O ato traz o significado implícito de “Ei, eu sou legal! Sou da mesma tribo! Não me matem!”.

 

6- Contar piadas animam o ambiente e fazem de você mais querido no círculo social. No entanto, existem ocasiões em que é “necessário” estar triste ou ao menos compenetrado. Não comente sobre como é engraçado ter algodão dentro do nariz em uma cerimônia funerária.

 

7- Como a linguagem humana é versão beta 1.0, existem apenas três tipos de interlocutores no ato comunicativo de contar piadas: o que não sabe qual é a graça, mas sabe contá-la; o que dá risada sem entendê-la; e o que dá risada e explica a piada aos dois primeiros logo após ser contada. Na dúvida sobre qual tipo de interlocutor ser, não se comprometa: seja o segundo.

 

8- Cuidado ao utilizar o recurso da ironia em países cujo IDH é menor do que 80. Poucos seres humanos possuem facilidade em compreender a fina arte da valsa do insulto, da esculhambação com gentileza. Pare de ironizar ao primeiro “Desculpa, não entendi!” do seu interlocutor.

 

10- Também pelas falhas da linguagem humana, obras primas da imagem, da literatura, da música e do cinema são dignas de compenetradas análises por parte de seus receptores, ainda que tais obras não necessitem de tanto esforço. Isso faz com que leve as mentes humanas viagem a lugares conceituais diferentes dos traçados pelo artista. Esta é a arte contemporânea: é como dar um mapa para o outro se perder. Uma contradição em termos.

 

11- De acordo com a Constituição do Universo, artistas só têm seu talento reconhecido quando vão para o mundo dos mortos. A razão é simples: Mozart morreria duas vezes se soubesse que suas sinfonias viraram toques polifônicos.

 

12- Por mais que a sua linguagem ainda seja arcaica, os seres humanos avançam tecnologicamente no sentido de torná-la ainda mais. Com o advento do aparelho chamado celular, um ser humano tecla um código de oito dígitos para falar o que quiser com outro ser humano. Após o advento do SMS o mesmo ser humano precisa digitar, no mesmo aparelho, o código “666444#8883666#22336” para dizer “oi tudo bem”. Portanto, adapte-se às novidades e pense em como você pôde viver sem elas.

 

13- O mesmo vale para a Internet – a rede terráquea de computadores. Com o tempo, você certamente vai presenciar abreviaturas em quantidade de fazer inveja a mensagens secretas militares, economia em pontuações de fazer lembrar o tempo dos telegramas e mal-entendidos de fazer lembrar o tempo do telefone fixo, utilizado até hoje pelos seres humanos para desfazer os erros de interpretação ocasionados por um e-mail.

 

14- Eu poderia continuar, mas o resto você entende com a prática. Aliás, se preferir, esqueça tudo o que leu até aqui. Os seres humanos não prestam atenção em como se comunicam. Nem mesmo nas mensagens que emitem ou recebem. Tanto que não perceberiam, muitos deles, que neste pequeno manual não consta a instrução número 9.

 

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Felipe Oliveira, mais conhecido como Grilo, tem 21 anos e é quase-publicitário. Ocupa a cabeça como redator, blogueiro e fazedor de TCCs extensos demais. Teve um peixe chamado Mc-Fish, não sabe falar em voz alta, pensa mais do que devia e só sai de casa quando sente falta da luz solar. Às vezes escreve no http://www.acidonacafeina.wordpress.com.




2 comentários

  1. Tweets that mention Frankenstoria » Blog Archive » BL013 – Caro amigo Zzyziks -- Topsy.com comentou:

    [...] This post was mentioned on Twitter by Douglas Miguel and Carolinne Carminatti. Carolinne Carminatti said: Outra dica de blog, pessoar. Vale a pena conferir! @douglasmiguel Bom dia. Texto novo no #frankenstoria: http://migre.me/8B3j [...]

  2. Yuki comentou:

    Grilo é o cara mais criativo que conheço em questão de textos como este. Mais uma vz uma obra prima com as costumeiras agulhadas nos costumes levianos dos humanos.

    Parabéns Grilo, curti muito o seu texto!!!

    A voz baixa e sua timidez esconde um homem de grandiosidade e genialidade tão imensa quanto o próprio mundo possa abrigar! Parabpens Grilo!

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