CAPÍTULO 05
por Marcelo Paradella
Engano meu. Nada ficou “tudo bem”. Durante as últimas duas semanas – telefonemas de consolo, explicações às autoridades, o maldito velório – meu corpo estava lá mas eu não. Você anda tão distraída…, Ãh?, Coitadinha… É a perda, é a perda. Perda, tsc. Não conseguia era tirar da cabeça aquela sua mensagem piscando enquanto eu corneava meu marido com ele mesmo – ou estava era corneando você? Enquanto a sogra e as crianças choravam na sala, várias vezes fugi para o quarto sob mil pretextos diferentes, Tristeza demais, vou retocar a maquiagem, Preciso mijar, Preciso dormir. Minha vontade era ligar o computador, olhar no histórico, ver o que você escreveu naquela maldita mensagem. Mas só ficava ali parada, olhando. Até alguém me chamar de longe ou bater na porta, e eu voltar para o mundo dos mortos.
