frankenstoria
set 9

Parte 03

Quem inventou o amor?

 

- Você me ama?
Começaram bem. E cedo! Logo às 7 da manhã. Após um sexo regular, sem maiores preocupações ou criatividade. O estranho é que desta vez quem puxou a conversa foi ele. Logo ele que nunca foi de questionar sentimentos. Enquanto achasse que amava, então quer dizer que a outra o amava também. O problema é quando o questionamento não é só constante, mas também inevitável.

 

- Que história é essa, você sabe que sim!
Que saco! Ela sabia que não seria uma conversa fácil, ainda mais depois de um sexo tão casual e sem propósito como o que acabaram de ter. Mais do mesmo? Sempre do mesmo! Talvez a resposta automática não tenha sido a mais sincera, mas com certeza foi a mais fácil de dar e mais coerente com aquele momento. Automatismos! Dormir, transar, trabalhar, comer, trabalhar, ver TV, comer, transar e dormir. Automatismos!

 

- É que não está parecendo, você está estranha.
Muito mais fácil jogar a culpa na outra. A outra está estranha, a outra falou grosseiramente, a outra nunca te escutou. Muito mais fácil não admitir os próprios erros, procurar os defeitos da outra quando não se encontra a suas próprias qualidades. Exatamente isso! As SUAS próprias qualidades. Afinal o amor não é isso? Enxergar no outro as suas próprias qualidades? Ou pior, as qualidades que você ACHA que possui?
Que coisa mais egoísta!

 

- Estranha como? Eu não fiz nada.
Na verdade estava com muito sono para querer fazer qualquer coisa. Esse tal de sexo matinal pode fazer bem para muita gente, mas para ela, naquele momento, só a fazia sentir mais sono. A essas alturas ela se preparava para tomar banho. Acordar na base da chuveirada mesmo, já que com sexo a coisa não fluiu muito bem. Acho que tem alguma coisa errada aí…

 

- Exatamente isso, você não fez nada, nunca faz nada!
Em vários momentos ele percebeu que os gemidos dela eram falsos, que o rosto era falso, que o gozo era falso. Não somente dela, mas seus também. Tudo tão automático, tudo tão protocolado. O pior é que não sentia vontade de fazer diferente, não havia tesão o suficiente para isso. Será que acabou? Será que é isso? Acabou o amor?

 

- Não sei o que você está falando. Quando não fiz nada? O que eu deixei de fazer?
Que saco! Ela já havia perdido a paciência. E logo tão cedo, numa quarta feira. Um calor dos infernos! O dia prometia ser bem longo e nada melhor que uma discussão logo de manhã para deixá-la de cabeça quente. Será que o idiota não percebe? Será que só ele não vê que as coisas estão diferentes? Que o automatismo e a rotina tomaram conta? Trouxa, imbecil!

 

- Tudo! Tá uma merda isso aqui caralho!
Se tem uma coisa que ele odiava era gente se fazendo de idiota, gente que joga verde!
Pra que isso pombas, onde isso vai levar! Ela devia admitir que tá uma merda e ponto.
Ele sabia, ela sabia, todo mundo sabia! Essa porra de amor acabou com todos os seus ideais sobre o que seria o amor! Malditos! Bem que dizem que “Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.” Amor não é isso, não desse jeito!

 

- É claro que tá uma merda e sabe porquê? Por que isso nunca daria certo mesmo!
Pronto até que enfim ela falou! Será que era isso que deveria ter falado? Será que não foi muito grosseira e acabou com tudo de uma vez! Será que acabou de jogar um grande amor pela janela? Mas que amor é esse? Que reprime, que exclui, que modifica, que cobra, que toma pra si e que não compartilha. Alias, compartilha sim! Os problemas, as grosserias, o mal humor e, de vez em quando a mesma cama. Mas nesse caso, de vez em sempre. Mas pelo andar da carruagem, nem isso ia bem. Também entrou no automático.

 

- Então é isso! Nunca daria certo e não está dando certo!
Devia ter avisado antes. Assim ele não teria se mudado pra lá. Ao inferno com esse amor! Ouro de tolo! Se valoriza, criam-se expectativas, mas na hora da troca não vale um tostão furado. Amor!

 

- Então é isso? Acabou!
Estranhamente – ou não – a tranqüilidade voltou para ela.
- Acho que sim…
Estranhamente – ou não – a tranqüilidade voltou para ele.
- Que bom… agora podemos transar!
- Só se você jurar que não me ama…

——————————————————————————

Bruno Duarte tem 26 anos, é publicitário, diretor de arte, estudante de design de interação, blogueiro, músico frustado e ser humano quando dá tempo. Fala sobre tudo isso e algumas outras coisas no www.mormasso.com/blog

Ouvindo Sonic Youth (Live in Santiago del Chile)




3 comentários

  1. Beta comentou:

    Muito bom, muito…

    Péssimo é a gente se acostumar com uma vida assim, tão mais ou menos, e até com um sexo mais ou menos.

    Adorei o texto e, especialmente, o desfecho.

    Parabéns, Bruno.

    Beijos

  2. Neire comentou:

    Show.
    Só incluiria na biografia do autor, PAI.
    É mais um belo título, não é?
    Parabéns Brunão!!!

  3. Bruno Duarte comentou:

    Valew Beta, estamos melhorando heheh…
    Pois é Neire, vou ter que acrescentar ali “Pai do/a Feijão” hauahuaha…
    bjs

Deixe seu comentário:

Observações: Seu comentário será analisado, e estará disponível assim que aprovado.