- Capítulo 03 – por Fernanda Lizardo
- Capítulo 05 – por Marcelo Paradella
CAPÍTULO 04
por Felipe Oliveira (Grilo)
“Entre no msn hoje à noite, às 22h. Ligue a webcam. Vou usar aquele espartilho que você me deu. Vai ser só esta vez. Estou morrendo de tesão. Sei que você também está.”
E-mail enviado com sucesso. Ainda estou decidida a fazer aquilo. Desta vez, sem dúvidas e sem hesitação. Nada pode me tirar da cabeça que vai ser melhor assim.
Enquanto o momento não chega, nenhuma resposta. Tento não pensar no assunto. Tento encontrar em mim os motivos para fazer isso. Você não entenderia. Você nunca entendeu. O medo sempre foi o argumento ao meu favor. E você sempre me cercou como se eu fosse uma fêmea no cio. Animais acuados não têm escolha, certo? Você pediu por isso. Tudo o que posso dizer é que vai ser melhor assim.
A janela se abre.
VOCÊ: Sabia o tempo todo que era isso o que você queria.
EU: Sabia que ia aparecer. Você também sempre quis.
VOCÊ: Eu te amo.
EU: Eu amo o que vou fazer.
VOCÊ: perversa… pervertida…
E lá estava aquele rosto que não via há anos. Queixo largo, barba cerrada, sorriso malicioso, olhos firmes, ombros largos e cada poro de sua face, naquela luz fraca, parecia sedento. O meu macho, o macho que eu sempre quis, ali, diante de mim… mas ao mesmo tempo tão longe, mais distante a cada segundo. E, em breve, uma eternidade intransponível nos separará.
EU: Como estou?
VOCÊ: Já vi o espartilho. Agora tira isso. Assim, devagarinho.
EU: Tenho mais uma surpresinha. Já volto.
VOCÊ: Faz um strip pra mim, sua vagabunda. Vai e volta logo, sua putanha desgraçada. Vai!
Deixei a janela minimizada. Crianças estrategicamente dormindo na casa da sogra. Casa vazia, com exceção de meu marido deitado no sofá, lendo um livro grosso quando apareci por lá. Olhou para mim, seminua, boquiaberto, esperando, aquele lixo de homem, ainda com o livro nas mãos. Fechei seu livro e o puxei pelos colarinhos. Disse que queria fazer uma surpresinha.
Acendi velas e incensos, vendei seus olhos e comecei a despi-lo lentamente, suavemente, e prender seus pulsos, com algemas, na cabeceira da cama. Sedução gratuita, sem esforço, sem vontade. Tentei não pensar mais nisso.
Vi de relance a janela voltar a piscar. Era você falando comigo. Nunca vou saber sua reação. Talvez esteja sem reação alguma. Talvez tenha gostado. Talvez vá me odiar. Ou talvez esteja dizendo “estou indo aí”. É um risco que estou correndo pela minha liberdade de você.
Subi no meu marido sem pensar em você. Ele é tão fraco, tão passivo… homem frouxo, mole, ridículo, que merda que eu fui fazer quando casei com outro que não era você. Merda! Tenho que gemer e pedir mais, pedir tudo, pedir com gosto todo o prazer que esse boneco de vodu, esta marionete entre minhas pernas não pode me dar…
Já tentei matá-lo com palavras. Mas você devolveu com outras. As suas palavras no monitor – malditas palavras – saíram das trevas para me atormentar. Como parasitas, elas sobrevivem em mim. Já aprendi a lição. Antes de você morrer pra mim, eu preciso morrer para você.
Esqueci o cuidado em prolongar sua dor com o tesão do meu marido. Comecei a ser mais violenta. Tudo por te odiar. Odiar seu suor forte, que não foi mais forte que este perfume nojento, por odiar seus urros que se deixaram calar com meia dúzia de gemidos afrescalhados, pelos seus xingamentos agressivos que foram banidos por carícias e palavras de amor do pai dos meus filhos. Por te odiar…
– ME FODE DIREITO!
Levei a mão na cara dessa marionete. E não cansava de bater nele. De bater em você. Cada vez mais firme. Sem dúvida. Sem hesitação. Tudo por te odiar. Tudo por você não estar aqui. Será que você ainda tá na webcam? Quando você vem aqui me puxar, me chamar de perversa? O que você tá esperando pra me socorrer? Cadê você pra me abraçar, pra enxugar minhas lágrimas? Cadê você pra me seqüestrar como disse que faria, para me fazer mulher, pra me fazer um filho?
– MAIS FORTE! MAIS FUNDO! ENTERRA EM MIM!
(… me ajude a enterrar você, sufoque, morra em mim, me faça te esquecer…)
E ele gosta de apanhar na cara. E isso me deixa com ainda mais ódio dele. De você. Um ódio que eu não posso mais conter. Assim como esse viado não consegue mais conter o seu amor por mim. Mas não, não vou dar essa alegria a ninguém.
Então, antes que o ato se consumasse, peguei uma fronha e esfreguei na cara dele. Fiz ele morder, depois cheirar e sufocar. Segundos que levaram horas. Que viraram minutos, que viraram horas. Que virou uma eternidade… a mesma entidade intransponível que se abaterá entre nós.
Não sei o que fiz. Só sei que queria fazer. Não sei se com ele ou com você. Não sei o que se sinto agora é alívio ou desespero. Penso em ler a mensagem que me deixou. O medo volta a me dominar. Desligo o computador. Vai ficar tudo bem.

26/08/2009 às 16:29
Intenso como os sentimentos…
Gostei muito!
Parabéns Grilo!
26/08/2009 às 22:58
Parabéns, Douglas! Deixou Srta. Rosa no chinelo.
Pior que o que mais tem é homem banana. Hm.
27/08/2009 às 00:24
CARALHOOOOOOOOOOOOOO!!!!! Porra, que animal Grilinho, me deu várias idéias! hauhauahuahauhaa. Legal ler esse lado meio erótico seu que eu não conhecia hauhauahuaha… Quem vai continuar???