E aí ela me fez chorar.
Não porque tenha feito algo de ruim ou sido sacana, não. Acho que ela nunca faria isso, ao menos não comigo.
Compartilhar almas, você sabe o que é? Porque casais compartilham vidas, irmãos também. Amigos? Em alguns momentos, sim. Mas, almas? Isso é raro. É coisa de sexto sentido. Pensar no outro e o outro aparecer. Saber exatamente o que ele ou ela está sentindo. Pressentimentos. Um caso de sintonia fina, mesma freqüência.
Vai daí que aqui estou eu, no meu cubículo, e ela solta a bomba. Eu, que vinha me sentindo mal não sei porque, passo a entender.
E toca a pensar no que fazer. Sugerir algo, alguma atividade? Não, astral nenhum.
Um filme, um livro, uma música, é engraçado como a arte pode ser tão efêmera frente a um real sentimento humano. Tudo vira forçação de barra. Sem noçãozismo. O cotidiano que demanda absurdamente da nossa vida se desmorona quando ela se impõe.
Resta o papo de sempre. E me pergunto, esse sou eu mesmo falando? É isso mesmo o que sou, brega assim? Ou o quê?
Queria dizer algo mais? Sim. Algo que não apenas a fizesse melhor, mas que também me definisse de uma vez por todas como pessoa.
Mas isso sou eu me iludindo. Ela tem uma perfeita definição de mim como pessoa. Sei que isso também é uma ilusão, um show que talvez eu apresente especialmente só pra ela. Mas a impressão que ela tem de mim é algo muito mais humano do que eu poderia pensar em ser. Afinal, passamos a vida inteira buscando uma definição pessoal, sem conseguir. Os outros nos definem. Nós apenas somos.
Enquanto isso, ela está ruim, num lugar ruim.
Olho para a TV. Buzz Aldrin está lá, dizendo que nunca viu algo tão desolador quanto a superfície da lua. Talvez ele esteja certo. Mas, no momento, o lugar tem forte competição.
Porque ao menos lá em cima ninguém pode ouvir você chorar.
http://www.youtube.com/watch?v=1hKSYgOGtos
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Marcelo Paradella escreve, dirige, edita, twitta, blogueia, diagrama, come, dorme, ronca, peida e baba, não necessariamente nessa ordem. Já produziu programas de rádio e curta-metragens. Cresceu praticamente dentro de uma rádio. Joga bola (mal), games (mal), faz sexo (ani-mal). Tem diversas pendências, indo desde um curta pra concluir seu curso de cinema até escutar as discografias completas de Bruce Springsteen e Neil Young (no momento, acabou de ouvir Born In The USA e On The Beach). Obviamente, está a um passo da linha que separa a genialidade da loucura. Infelizmente, um passo à frente.
