Parte 02
Bola sete na caçapa do canto
- Maiores ou menores?
Quente ou frio? Alto ou baixo? Direita ou esquerda? Abaixo ou acima? Dentro ou fora? Preto ou branco? Sapato ou chinelo? Casa ou apartamento? Praia ou campo? Ser ou não ser? De todas as questões possíveis, naquele instante, ele queria apenas a solução para uma pergunta que talvez pudesse decidir o destino daquela noite: Matar maiores ou menores em uma partida de sinuca.
- Menores… Você mata “menores”.
Segurando o taco em uma das mãos e um cigarro na outra ela pensava como havia parado ali. Noite chuvosa (pra variar) e ela ali parada com um taco na mão tentando imaginar o que se passava na cabeça dele. “O que ele quer da vida?”, “O que ele quer comigo?”, “One night stand?” diriam nos Estados Unidos de onde havia voltado há poucos dias, mas não era dessas, nunca fora, pelo menos até hoje.
- Bola sete na caçapa do canto.
Ele disse ao mesmo tempo em que apontava a direção da bola com o taco. Teria que escolher um dentre dois caminhos. No primeiro um movimento arriscado, pois teria que passar por entre duas bolas maiores que por alguns poucos milímetros o teriam sinucado. No segundo, a mesma saída de sempre, as tabelas. Inconscientemente traçou um paralelo entre os dois jogos: O jogo de bar e o jogo da vida. Conseguiria encaçapar toda aquela confusão de sentimentos com a mesma destreza que saia de jogadas difíceis no bilhar? “Talvez. Melhor sair pelas tabelas.”, pensa.
- Você não tem outra jogada…
Ela disse olhando nos olhos. Nunca foi de meias palavras. Ou era ou não era! Aquilo soou muito mais profundo do que realmente deveria. “Uma intimação? Que seja!”, ela pensa. O cigarro lentamente se consumia em suas mais de duzentas substâncias e o barulho de beberrões festejando entre tacos e garrafas de cerveja barata lentamente se tornavam nada mais do que um ruído de fundo.
-…
Ele engoliu em seco. Ou era ou não era! Pensou em recorrer a um copo de cerveja quente que havia esquecido em cima da mesa, mas achou melhor não. Naquele momento qualquer movimento brusco o tiraria da concentração de seu objetivo principal: A bola sete na caçapa do canto? Também, mas quem dera o “jogo” fosse tão simples! Crescer, evoluir, construir família. A sociedade traçava certos padrões que o faziam pensar sobre a vida e seus significados. “A todo instante me vejo entre bolas maiores e tendo que recorrer a tabelas para conseguir matar a bola sete na caçapa do canto”. Encarou-a nos olhos e pensou “Que merda! Me sinucou a filha da puta!”
- Você não tem outra jogada! Just do it!
A impaciência já havia tomado conta dela. “Foda-se o jogo! Foda-se o maldito bilhar! Apenas me faça sentir amada! Fuck!” Tanto desejo a fez apagar o cigarro desperdiçado. Já segurava o taco com as duas mãos, uma última barreira que a protegia de voar em seu colarinho e socar-lhe a mão na cara, beijar-lhe a boca.
- Ok… Eu te amo…
Optou pelas tabelas. Desafiar a sociedade e seus valores tortos e pré-concebidos? Pra quê? Com certeza as tabelas são a saídas mais fáceis e menos dolorosas, em ambos os jogos.
-…
Dessa vez ela engoliu em seco. Ou era ou não era! Pensou em recorrer a um copo de cerveja quente que havia esquecido em cima da mesa, mas achou melhor não. Naquele momento qualquer movimento brusco a tiraria da concentração de seu objetivo principal: A bola sete na caçapa do canto? Também, mas quem dera o “jogo” fosse tão simples! Crescer, evoluir, construir família. A sociedade traçava certos padrões que a faziam pensar sobre a vida e seus significados. “A todo instante me vejo entre bolas menores e tendo que recorrer a sinucas para conseguir isolar a bola sete no canto”. Encarou-o nos olhos e pensou “Que merda! Me sinucou o filho da puta!”
- Eu também!
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Bruno Duarte tem 26 anos, é publicitário, diretor de arte, estudante de design de interação, blogueiro, músico frustado e ser humano quando dá tempo. Fala sobre tudo isso e algumas outras coisas no www.mormasso.com/blog
Ouvindo Guizado

3/07/2009 às 15:56
Verdadeira sinuca de bico. Parabéns, a parte 2 é tão sincera quanto a 1, um duro golpe para os que ainda veem os relacionamentos como contos de fadas.
15/07/2009 às 16:33
Contos de fadas? Achei que eles só existissem na forma de estórias… Na vida real, o texto aí combina bem mais!