- Capítulo 01 – por Douglas Miguel e Guilherme Tensol
- Capítulo 02 – por Bruno Duarte
CAPÍTULO 03
por Tiago “Xorão” Resende
A meia luz do barzinho coloca em evidência as superfícies envernizadas das mesas de madeira, criando um padrão quase xadrez no local. A música a meio tom incentiva a conversa, que já dura mais de uma hora. Débora é extremamente agradável, pensa, e concluí que de forma alguma é um sacrifício estar ali. De fato, tudo é convidativo na ruiva sentada à sua frente. Ela exala sexo. Deve ser os feromônios, racionalizou, mas é o que realmente parecia ser. Mal conseguia se segurar dentro das calças com ela por perto. Quando se encontrava com ela, demorava apenas alguns minutos para que não parasse de pensar em despí-la e comê-la onde quer que estivesse. Mas não hoje. Hoje ela está agradável, extremamente agradável, mas só isso. Não sabia como a conversa havia chegado no presente assunto, mas se viu rindo da ironia.
- Ei, para de coçar o pescoço. Não sei como consegue se cortar ao se barbear.
- Como assim? Todo homem se corta quando se barbeia.
- Não senhor. Meu namorado jura de pés juntos que nunca se cortou.
- Ele usa cera, é isso?
- Não, seu besta. Barbeador normal mesmo. Daqueles compra três leva quatro sabe?
Ele toca de leve o celular em alto relevo, pelo lado de fora do bolso da calça.
- Então ele “tá” mentindo. Todo homem se corta. – enfatizou o “todo”.
- Ele não.
- Talvez ele não seja homem. Não o suficiente pra você, pelo menos.
- Mas não existe homem suficiente pra mim.
- Ah sua devassa.
- Sou sim, e daí?
- Eu não sou suficiente pra você?
- Se fosse eu já teria terminando com ele, não?
- Não tá com ele por pena?
- Não, é que tô acostumada. Ele tá lá sabe?
- E eu tô onde?
- Aqui, no estacionamento, no elevador, cê sabe. Ele tá lá, em casa, mas eu sempre gostei de acampar.
Ele ri. Balança a cabeça de um lado para o outro em um não tímido. Se debruça um pouco sobre a mesa, como se quisesse cochichar. Ela aproxima seu ouvido da boca dele.
- Se você gosta de acampar, eu já tô de barraca armada. Vamo embora? – perguntou com um olhar malicioso. Brega, mas ela adora papo sujo.
- Sim. – responde ela com olhar sedutor. Mordisca o canto direito da boca. Cliché, mas ele adora.
Cheque-mate, pensam os dois.
- Já volto.
Ele se levanta, desligando o piloto-automático em que estava, e toma a direção do banheiro. Antes de chegar na porta, enfia a mão no bolso direito e retira o celular. Fecha a porta, vai até o pequeno espelho localizado acima da pia mais à esquerda. Não verifica se há alguém no banheiro. Não importa.
Abre o celular. Não precisa procurar o número dela na agenda. É o número dois, e o numero 2 apenas porquê mentia para si mesmo que ela não era a coisa mais importante pra ele nos últimos tempos. Ri. Pensa que parece uma colegial, adolescente, boba, apaixonada pela primeira vez. A ponte está ali na frente dele. É só apertar o 2 por alguns segundos. Apenas alguns segundos.
