- Capítulo 02 – por Roberta Simoni
- Capítulo 04 – por Felipe Oliveira (Grilo)
CAPÍTULO 03
por Fernanda Lizardo
Eu devo estar louca. Sei que de nada vai adiantar tentar ficar longe do computador porque, mesmo que ele esteja desligado, a história vai continuar ali. Os e-mails chegarão, as mensagens piscarão na tela como um alerta constante para a vida que tenho agora: patética, patética, patética.
A quem eu quero enganar? Você tem mesmo mais medo de mim do que eu tenho de você? Um botãozinho que eu não quero ligar. Tão simples! E eu fico fingindo que sou forte e que você é o covarde que não quer se apaixonar. Você joga. Eu sei que joga. E normalmente vence. E esse é meu temor agora: ceder, me render, cair do trapézio e deixar a rede por sua conta. O medo é meu. Essa coragem é máscara, é falsa como a esperança que tenho de reanimar meu casamento.
Ah, covarde… Medo de mudar de vida.
E quando criança eu era tão, tão mais corajosa!… Não tinha medo nem de baratas! E me divertia pegando o bichinho pelas antenas enquanto ameaçava jogá-lo sobre as colegas de escola. E elas corriam e choravam desesperadas. E eu ria. Ria muito. Gargalhava até a barriga doer.
E agora não consigo apertar um botão. Porque sei que ali vou encontrar todos os meus medos, os meus fantasmas.
Sim, você é meu fantasma. Você está em mim todas as noites, surgindo como um espectro a minha frente sempre que me levanto de madrugada para beber um copo de água. Viro litros de líquido garganta abaixo e nada se resolve. Lábios no gargalo e eu continuo queimando, exorcizada de maneira superficial e vã. Você me assombra.
Não há condições de viver assim mais. Eu não quero mais perder este tempo com o pensamento onde não deveria estar, não quero mais ter você preso à mente. Penso em trabalho, penso em você, penso no que farei para o jantar, penso em você, penso nas contas a pagar, penso em você, penso nas crianças, penso em você, penso em você, penso em você.
Não dá mais.
Já tentei me afastar tantas vezes, porém nunca consegui. E agora sei que a fraca sou eu. O vício louco que não consigo largar. E meu marido achou tão lindo porque parei de fumar. Disse que ficou orgulhoso. Eu parei de fumar para sugar outras coisas. Ainda que virtualmente. Só troquei de vício, é isso. Deixei de pegar filtro amarelo para pegar o homem que me provoca por e-mail, por mensagens instantâneas, que me segue… Amante is now following you.
Acho que só terei a paz completa se você se for de vez. E, ainda assim, se não sobrar nada de você. Morto e enterrado. Não. Morto e cremado. Não quero túmulo para visitar. Quero você jogado ao vento, dissolvendo como minhas fantasias, largado no mar ou – ainda melhor – na areia, para se misturar ao lixo e aos dejetos deixados pelos pombos ao largo da costa.
Quero te matar. Matar com metáforas, quebrar uma ironia na sua cabeça e fazer você sangrar ao pleonasmo.
Não.
Você ainda será sarcasmo.
A morte tem de ser de verdade. Para matá-lo em minha cabeça, talvez eu precise matá-lo fisicamente também. E fazer virar a cinza mesmo, que vai voar para longe e se espalhar de modo que eu não consiga juntar nunca mais, tal qual aconteceu com meus sonhos.
É isso. Você tem de ser morto.

3/06/2009 às 21:53
Odeio esta história, ela me invade sem pedir licença.Quero mais!
3/06/2009 às 22:47
Fernanda,
Você deu uma ótima continuidade a história, que agora já o nosso “filho”, como diz o Guilherme.
Adorei o seu capítulo. Parabéns.
Muito, muito, muito bom.
Beijos,
Beta.