frankenstoria
mai 6

Clarisse se olhou no espelho uma segunda vez. Os olhos muito negros não escondiam a tensão de quem está prestes a fazer algo errado; não, não cometeria nenhum crime, apesar de a consciência espetá-la com mil alfinetes, cada um com o nome do noivo gravado em baixo relevo… Por fim convenceu-se de que os fins justificavam os meios; precisava do dinheiro e mais ainda precisava do fim de semana livre, mas tinha certeza de que se pedisse o dinheiro emprestado, ele faria mil perguntas e outras mil chantagens, para não só não fazer-lhe o empréstimo como também não a deixaria viajar.

 

Vinha já há algum tempo insatisfeita com o relacionamento morno, rotineiro, que caminhava a passos lentos para um casamento muito bem visto pelas famílias e pelos amigos de ambos, mas que já começava a causar dúvidas em seu coração de mulher que precisa ser eventualmente conquistada, de preferência por seu próprio homem, mas ele não parecia se lembrar disso, ultimamente. E como diz o jocoso ditado, “quem não dá assistência, abre a concorrência”, ela teve sua atenção atraída para um jovem professor que proferira uma palestra deliciosa sobre relacionamento empresarial na faculdade; debateram, trocaram idéias, e-mails e MSN e logo a conversa estritamente didática tomou um rumo sensual e perigoso que culminara num convite para passar um fim de semana em Ribeirão Preto, para algumas palestras e muito provavelmente, colocar em prática as conversas ousadas mantidas pelo computador.

 

Desviou o olhar do espelho, para fechar os olhos e lembrar a boca que lhe sorria pela webcam e lhe causava tremores frios pelo corpo.

 

Aventura, tudo que sua alma entediada precisava.

 

O noivo chegou e a encontrou “coincidentemente” saindo do banho, enrolada numa toalha, a pele fria e úmida, os cabelos caindo pelas costas. Ele sorriu malicioso.
– Cheguei na hora…

 

Ela devolveu o sorriso com um ar inocente de quem é pega de surpresa.
– Achei que você fosse demorar um pouco mais.
– Não, não, acabei o trabalho no horário mesmo…

 

Ela o interrompeu enlaçando seu pescoço e beijando-o carinhosamente.
– Que bom, mais tempo pra ficar com você antes de sair pra faculdade… Venha pro quarto a gente conversa enquanto eu me arrumo.
Tomou o noivo pela mão e levou-o ao quarto, onde com a ponta dos dedos, empurrou-o para a cadeira do computador, e apoiando as mãos nos braços da cadeira, beijou-o mais uma vez.
– O que você quer conversar?

 

Ela fitou os olhos do noivo e por um momento sentiu remorso; mas foi um momento muito curto, logo soterrado pela lembrança dos fins de semana em que era sumariamente ignorada pelos lances do futebol, ou qualquer outra coisa que desvie a atenção de um macho acomodado.
– Preciso ir a Ribeirão Preto, fazer um mini-curso… Sabe que estou devendo créditos na faculdade…
– Sim é verdade, esses créditos são foda de conseguir…

 

Ela roçou o rosto úmido pelo pescoço dele, fazendo com que a frase se perdesse lentamente. Sentiu as mãos que subiam por suas coxas sob a toalha e, num movimento quase felino, se soltou e se ajoelhou diante das pernas abertas de sua vítima.
– Mas a gente pode conversar sobre isso depois não acha? – perguntou maliciosamente, enquanto desabotoava a calça do noivo, que já nem lembrava qual o assunto, já na expectativa de sentir aquela boca que o levaria a um orgasmo rápido e sem esforço algum de sua parte.

 

Naquele dia ela perdeu a primeira aula na faculdade, mas no dia seguinte, embarcava num ônibus para viver as horas de seu próprio prazer com outro homem, enquanto o noivo contava aos amigos o boquete perfeito com que a sua noiva iniciara duas horas de sexo selvagem.
– Aquela ali tá na minha mão, cara, faz tudo pra me agradar…

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Jessie, 30 anos, uberabense, estudante de Sistemas da Informação, cara de cigana, palavrado misto de menina e estivador, viu os amigos crescerem e aparecerem…ou quase. Tem um blog (http://mineirasemfreio.blogspot.com), um filho e já plantou suas árvores, agora busca algo além.




4 comentários

  1. Flora comentou:

    Adorei! De fato não há melhor sensação do que a de usar e se fazer de usada.

  2. Ramon Wadry comentou:

    Foda.

    Final surpreendente, como uma boa história deve ter.

  3. Douglas Miguel comentou:

    Só é corno aquele que é curioso.

  4. Karine comentou:

    Adorei Jessie, final ótimo…
    Isso mostra que os homens nunca devem achar que estão enganando uma mulher… Mas enfim, Jessie sempre escreva bons textos como esse, pra que todos continuem lendo e que não tenham preguiça de comentar… ;D

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