Parte 01
Linha 101. Barro Preto à Baependi – Parador
- Eu te amo…
Disse ele, quase como se pedisse que passassem a vasilha de legumes no almoço de domingo à tarde. Talvez tenha sido mais sincero que isto, visto que raramente comia mais que duas ou três folhas de alface, embora se considerasse da geração saúde. Cada um cada um, e justamente as estranhas manias que nos fazem diferentes é que nos tornam semelhantes uns aos outros. Todos somos um. Irônico? Talvez ele preferisse chamar de casualidade, a mesma que fez com que todo dia os dois se encontrassem naquele mesmo ônibus abafado em um calor de 25 graus às 7 da manhã.
- Como?
Ela fingiu que não entendeu, mas é claro que entendeu. Seu coração disparou como um touro ao ver aberta a porteira e sentir a horrível sensação de ter as bolas – embora não tivesse bolas – apertadas por um sedém. Um espetáculo de dor e sofrimento coroado pelo triunfo do homem sobre a besta. Por um acaso seria isso o amor? Talvez com a mesma carga de horror e desespero. É claro que entendeu! Que estranho lugar para suar. As mãos. Justo as mesmas que algumas horas antes se debatiam contra o rosto de um homem que a pouco não passava de mais um rosto na multidão. Mãos que acariciavam. Que batiam. Dedos que se contorciam capazes de arrancar uma alma de dentro do corpo. Possessão demoníaca. Por acaso seria isso o amor?
- Eu te amo
Desta vez olhando nos olhos dela, assim a intensidade é maior. Talvez ele fosse realmente um cretino, um tremendo sacana atrás de mais uma noite de sexo grátis, o conquistador barato, um grandíssimo filho da puta. Talvez. Alguns jogam xadrez, outros admiram obras de arte, alguns lêem livros e assistem filmes. Ele ama. Mas que amor descabido é esse? Sem pé nem cabeça, sem planos ou futuro, sem casamento e filhos. Uma paixão que jorra pelas secreções compartilhadas. Nojento? Claro que é. Mas sexo é vida não é? Talvez uma das maiores intimidades que dois – ou mais – seres humanos podem compartilhar. Compartilhar. Uma das bases do “estar” em amor. Talvez não signifique muito, mas é o melhor amor que poderia dar naquele momento.
- Mas… Por que você está me dizendo isso? O que isso quer dizer?
Agora já era, o tremor tomou conta, seu frágil corpo feminino denuncia que alguma coisa ali esta fora do normal. Será isso o amor? Será que pode se entregar daquela forma? Será que pode ser assim, tão fácil? Será que não pode? “Motorista, por favor, pare o ônibus!” – pensa – “Não posso, não quero, não devo!” – re-pensa. “Que vontade de arrebentar a sua cara em tapas, de morder a sua boca de rolar contigo por esse chão agora mesmo” – será o amor falando? Desejo ou necessidade? “Deve ser brincadeira… é isso… ele só pode estar brincando”
- Quer dizer que te amo…
Filho da puta! Desgraçado! – ele pensa.
-…
Filho da puta! Desgraçado! – ela pensa.
- Não acredita em mim, não é?
Claro que não. Onde já se viu! Ela deve pensar que ele é um doente! Um viciado em sexo. Alguém sem qualquer respeito pela figura do próximo, um egoísta. Mas um egoísta que ama. Seus seios, sua bunda, entrar e sair por entre seus rins sem qualquer falta de pudores ou bons modos. Sim ele ama! Um amor à moda antiga.
-… Acho… Não sei…
Não me faça sofrer, me faça gozar. “Meu Deus, eu sou uma porca. Uma porca que também é filha de Deus, filha do gozo!”. O calor que saia por entre suas pernas já podia ser sentido pelos outros pobres enlatados do coletivo cento e um. Podia jurar que já estava bem acima dos 30 graus que lhe fazia suar entre os seios às sete e cinqüenta da manhã. “Meu Deus, o que os outros vão dizer?” Pro inferno com os outros! Ela não deve satisfações a ninguém. É maior de idade e vacinada.
- Eu desço no próximo ponto…
Que imbecil. Por que foi dizer isso? Um besta! Boçal, Canalha. Levanta-te e anda! Como uma ordem dita pelo filho de Deus ele simplesmente se empenha em um esforço sobre-humano para se postar de pé. Pernas que sempre andaram agora tremem como as de um bebê aos primeiros passos. “Porque sempre fico na janela?” Seria muito mais fácil se pelo menos desta vez tivesse sentado no corredor. Sou um egoísta mesmo…”
- Ah…
“Não se mova. Não se levante. Não abra as pernas, não desta vez!” Ela apenas se põe de lado com as pernas juntas. Um espaço mínimo para que ele possa passar com a segurança de não ter que tocá-la. Mas como queria que ele a tocasse. O calor dos dois corpos entram em choque. Poderiam pertencer a um corpo só e por um breve momento assim o foi.
- Tchau… Até amanhã.
Puxa a cordinha. Fim do primeiro assalto e realmente não se pode dizer que ouve vencedores. O ônibus para. Ele desce. Dia quente. O chão molhado indica que ouve uma breve chuva que refrescou em parte os calores da manhã, pelo menos no mundo fora do cento e um. Talvez isso explique os vidros embaçados do ônibus. Assim como os vidros traseiros de seu carro na noite anterior, diferentes talvez por um pequeno detalhe. Uma frase desenhada entre os vapores que começavam a se dissipar em uma das janelas do ônibus.
- Eu também…
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Bruno Duarte tem 26 anos, é publicitário, diretor de arte, estudante de design de interação, blogueiro, músico frustado e ser humano quando dá tempo. Fala sobre tudo isso e algumas outras coisas no www.mormasso.com/blog
Ouvindo Radiohead – The Bends (1995)
