(à Ani)
Eu quero a navalha e a carne.
Quero que elas se toquem com gentileza
para que eu sinta a frieza
do metal, pouco a pouco se perdendo no calor…
(à Ani)
Eu quero a navalha e a carne.
Quero que elas se toquem com gentileza
para que eu sinta a frieza
do metal, pouco a pouco se perdendo no calor…
Eu venho tentando me afastar do computador. Há dias não checo sequer o meu e-mail. Estou convencida de que minha vida é atarefada demais para isso. Acordo cedo, cuido da casa, faço o almoço, levo as crianças na escola, vou para o trabalho, me ocupo o dia inteiro, enfrento horas de engarrafamento na hora de buscar as crianças na escola. Faço o jantar, ajudo as crianças nas tarefas de casa, e ultimamente tenho recebido ligações do meu marido avisando que ficará trabalhando até mais tarde. Janto sozinha com as crianças, lavo a louça, e, se eu não estivesse tentando me livrar de você, eu, provavelmente, estaria no computador agora. Mas troco esta máquina que me dá acesso a você por um livro.
Merda de livro. Que tédio. Desisto, prefiro você.
A: Não achei que fosse me ligar hoje novamente.
B: É, nem eu…não mesmo.
A: Você sempre some.
B: Eu sei. Eu sou assim. Aliás…o que eu tô fazendo aqui?
A: (risos).
B: (risada sem graça).
No táxi a caminho do local marcado novamente se tortura, pensa em quanto aquilo tudo pode ser uma tremenda perda de tempo. Poderia simplesmente ligar para ela, acabar logo com esse aperto no peito e peso na consciência. Mas não, pelo menos por enquanto o único alivio que sente é o da loção pós-barba vagabunda que comprou no mercado…
- Como? – perguntou o taxista.
- Não, nada, apenas pensando alto.
- Ah sim, é que me pareceu mais um suspiro que um pensamento. – o leve sotaque nordestino se manifesta.
- Pois é, a vida não é fácil não amigo.
Clarisse se olhou no espelho uma segunda vez. Os olhos muito negros não escondiam a tensão de quem está prestes a fazer algo errado; não, não cometeria nenhum crime, apesar de a consciência espetá-la com mil alfinetes, cada um com o nome do noivo gravado em baixo relevo… Por fim convenceu-se de que os fins justificavam os meios; precisava do dinheiro e mais ainda precisava do fim de semana livre, mas tinha certeza de que se pedisse o dinheiro emprestado, ele faria mil perguntas e outras mil chantagens, para não só não fazer-lhe o empréstimo como também não a deixaria viajar.