- Capítulo 02 – por Roberta Simoni
- Capítulo 03 – por Fernanda Lizardo
CAPÍTULO 01
por Guilherme Tensol
VOCÊ: Ha. Então eu sou um calhorda, então é isso que eu mereço…
EU: Claro. Você é folgado, do contrário se acomodaria, esqueceria do meu choro como quem esquece o bolo no forno
VOCÊ: Não joga isso na minha cara. Sempre fiz bolo sovado
EU: Verdade. Nunca fez algo que preste
VOCÊ: Vc é perversa
EU: Só medrosa, na verdade. Não haveria outra forma de te convencer disso senão sendo perversa. Vc sabe, homens… Só aprendem na chibata
VOCÊ: Ui. Cadê o espartilho que te dei?
EU: Dei
VOCÊ: Pra quem?
EU: Dei pra outro, usando ele
VOCÊ: Perversa : (
EU: Foi você quem foi embora
VOCÊ: Calhorda. Mereço
EU: Pára. Não combina contigo
VOCÊ: …
EU: …
VOCÊ: Amor?
EU: Não me chama assim
VOCÊ: Tá sozinha?
Sim, você é um calhorda. Mas e daí? Penso no tamanho do desperdício disso, desperdício continuar, no fim sou eu quem me sinto a idiota diante de todo mundo.
Mas preciso disso. Absolutamente.
Desesperadamente, preciso ser a vítima.
…preciso mais que do próprio medo, o único capaz de impedir-me de ceder, de responder a maldita mensagem no computador.
EU: Desde que vc se foi, sim
E então me pego pensando nas coisas absurdas de um passado para o qual desejaria voltar só para vivê-lo melhor. Só que não há tal coisa, voltar, e isso me tira a calma, isso e as muitas crianças que hoje dependem de mim.
— MÃÃÃÃÃE! — gritos irados ecoam pelo corredor, não quero saber. Só hoje, eu mereço! Eu me dou o direito! As crianças, coitadas, não tem culpa de nada. São só bichos sedentos, elas só querem, sempre querem mais e não se importam em exigir. Nem são tantas crianças assim, meu deus… Mas às vezes — só às vezes, quando o frio chega e a chuva não, sinto que são infinitas.
— Só um segundo filha.
E chega o marido.
— Oi meu bem.
— Oi.
— Tá no computador?
— Tô traindo você…
— Oi?
— Já já vou pra cama.
— Tá bom. Não demora benzinho…
Beijo estalado na testa. Que tipo de macho corteja sua fêmea com a porra dum beijinho na testa? Me pega joga na parede e me enraba logo seu frouxo, seu viado…
— MÃÃÃÃÃE!
— Já vou, filha.
VOCÊ: Eu jamais saí daí. Não de verdade
EU: Vc não tá aqui agora, é só o que eu sei
VOCÊ: Não estou? Dentro de você, não estou?
…e é sob a agonia de um chorinho longe que decido largar do passado. Tudo bem, deveria tê-lo aproveitado mais, mas e daí? O amanhã de ontem é o hoje, o passado não existe e o futuro é uma ilusão, só vivemos o agora. Meu deus… O cursor piscando, ninguém me come como esse homem, é só responder a maldita mensagem no computador.
— Mãe…
É só responder e começar tudo de novo, vida nova… Não! A vida é a mesma, só outra rodada. Mmm… Bem que uma rodada de bom vinho viria a calhar hein…
EU: …
Droga! Respondo? Não respondo? O cursor ainda está piscando, logo minha filha estará dormindo. O frouxo também.
VOCÊ: Desculpa
EU: Não posso. Você não quis casar comigo, outro quis
Não sei se devo, campo minado. Mas como preciso…
VOCÊ: Se você quiser eu quero
Sei que não devo, mas já não quero saber. Pouco importam as crianças, pouco importam os gritos de “Mãe!” no corredor, eles uma hora param, desistem. Sempre há amanhã, isso não é ilusão. Cansei desse jogo de idas e vindas, não quero mais, não posso mais!
E a rodada de vinho ficará para depois, para nunca mais.
EU: Por favor, não
Quando não tiver mais gritos, quando não precisar esconder meus passos nas pontas dos pés, quando não houver mais encontros e desencontros — aí sim rodadas e mais rodadas de vinho e outras rodadas e mais rodadas de tequila porque então eu vou querer dar, dar como uma vadia, égua barranqueira, cadelinha no cio. E o momento será completo, nenhum vestígio de sobriedade. Apenas a mais pura e absoluta entrega. Quando não existirem mais sombras…
VOCÊ: Tô passando aí
A campainha toca, tremo — Será ele?!
O tempo pára e o segundo contém minha angústia e minha vida: é só minha pizza, só isso.
Chegou fria, estou irritada, pago só metade. Ao menos as crianças pararam de chorar. Desistiram, como disse que desistiriam… E eis um pensamento cruel: são fracas de vontade, desistem fácil, assim como o calhorda do pai.
EU: Já to indo pra cama
Ufa. Que maldade. Não sou uma mãe que mata. São só crianças… Mas o pai não. Ele sabia exatamente o que estava fazendo, ele presenciou cada soluço de sofrimento, cada pedido de clemência para que parasse, não mais fizesse jogos comigo, se abrisse para mim, demonstrasse o amor que sabia que tinha por mim, e por fim não me abandonasse — mas tudo nada significou e meu homem se foi. Eu não o conhecia e ele se foi, ele achava melhor guardar-se só para si. Talvez por prezar-se demais. Provavelmente, por ser um completo idiota.
VOCÊ: Amo vc
EU: calhorda
VOCÊ: perversa
EU: Ama de verdade?
E aqui está ele, de volta do mundo dos mortos. Ele. Ele e seu impertinente fálico cursor piscando… Não diz coisas como Oi! Taí? ou Olha, tô com saudade… ou Me dá atenção!… Nada. Web-silêncio, jogou a isca e só me espera. Se fosse um telefonema, seria um daqueles momentos onde a pessoa fica muda do outro lado, só ouvindo a respiração. Como é no computador, é só um cursor piscando. Coisas do mundo moderno. Medo virtual.
EU: Boa noite
Decido.
Sem resposta, segundos depois ele está offline.
Como a pizza, camisetão e pés na escrivaninha, meu cetim iluminado pelo cálido da tela. Bebo coca, desejo a presença dele que adora pizza gelada, ele meu macho, logo ali do lado, longe um click — só pra confirmar que ainda sou dele saiu do mundo dos mortos. Mundo que o faz chafurdar em atitudes nunca tomadas, que o faz escutar cada grito, cada protesto, cada voto contra, pois já não é mais acreditado por ninguém. Todos já desistiram dele, todos eu e as crianças. Porque não há um só que lute por ele, não mais, aquele cachorro! Não há qualquer um no mundo todo que esteja sempre ali do lado dele. E um dia virá à tona toda sua angústia, e neste momento ele se verá no espelho e chorará a verdade, e então ele pensará em mim.
Os gritos não param, amores perdidos corações partidos e minhas crianças se fazendo presentes, melhor interromper a brincadeira antes que o castelo desabe. Eu, viciada em desabamentos, é importante saber a hora certa de parar.
E para não mais sofrer em nome do virtualmente impossível, me deixa sem resposta, sozinha comigo mesma no mundo real.
E para não chorar, desligo o computador.

30/04/2009 às 14:55
Lembro quando li esse texto pela primeira vez. Me senti invadida… rs ADORO!!!!
18/11/2009 às 00:45
Eu lembro de quando isso foi escrito pela primeira vez. Há.